Darwin, metal e falas de motor

CARRO REI no Festival de Roterdã

Se Darwin ainda estivesse vivo, será que poderia projetar uma continuidade da sua linha de evolução no sentido do homem chegar ao estágio de máquina? Um personagem de Carro Rei poderia sintetizar todo esse processo. É Zé Macaco, o gênio da mecânica capaz de transformar uma lata velha num bólido ultratecnológico. Ao longo do filme, que estreou no Festival de Roterdã, Matheus Nachtergaele, numa composição audaciosamente simiesca, parece evoluir e involuir entre os três estágios.

Carro Rei é uma fábula arretada sobre o homem dividido entre a Natureza e a tecnologia. A ligação entre Uno (Luciano Pedro Jr.) e os carros é umbilical. Ele nasceu dentro de um Fiat da frota de táxis do seu pai. Desde cedo, aprendeu a conversar com o automóvel (voz de Tavinho Teixeira). Foi até salvo de um atropelamento pela decisão autônoma do carro. Quando ele cresce e a prefeitura de Caruaru manda tirar de circulação todos os carros com mais de 15 anos de uso, Uno resolve reformar seu Fiat amigo com a ajuda do tio Zé Macaco. Com isso, torna-se famoso como salvador de carros velhos, os quais converte em máquinas possantes capazes até de falar e fazer sexo.

Mas Uno, ao contrário do que sugere seu nome, tem dois lados. Quer estudar agroecologia e atuar numa associação do ramo, assim como seu crush Amora (Clara Pinheiro). Tenta juntar as duas paixões tão opostas, mas o que consegue é criar uma guerra entre elas. A nova empresa King’s Car, criada para fazer “justiça social”, toma a forma de uma seita cujos fiéis, aditivados por combustível, tornam-se maquinais e fanatizados. Os propósitos de “modificar a aparência e resistir” ganham contornos assustadores que lembram rituais da extrema-direita.

Não faltaram coragem e capacidade de invenção a Renata Pinheiro (Amor, Plástico e Barulho, Açúcar, Praça Walt Disney, Estradeiros, Superbarroco) e sua equipe. Carro Rei ecoa toda uma mística cinematográfica sobre a relação fetichista e erótica entre gente e carros – das motocicletas de Kenneth Anger em Scorpio Rising às limusines falantes de Holy Motors, passando por Crash – Estranhos Prazeres, de David Cronenberg, e Christine, de John Carpenter. Cenas como a da performer Mercedes (Jules Elting) copulando com o Carro Rei ou das pessoas e carros delirando ao som do Hino Nacional são dignas de virar referência no tema.

Não seria impróprio citar ainda Ela, de Spike Jonze, também sobre uma conexão entre homem e tecnologia que começava em harmonia e desandava em distopia.

O cenário de Caruaru acrescenta um subtexto de crônica provinciana que contrasta divertidamente com as bizarrices da história. Ainda que pareça às vezes confuso e sobrecarregado de ideias, Carro Rei é mais um exemplo de cinema atrevido e provocador vindo de Pernambuco. Como de praxe nos filmes de Renata, a direção de arte transborda criatividade, o aparato de luz e cores é estimulante, e o som faz um espetáculo à parte com seus hibridismos de voz e ronco de motor. Um filme envenenado como os carros fantasiosos de Uno e Zé Macaco.

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