Do palco à tela, “O Rei da Vela”

Caiu na rede uma preciosidade sem tamanho: a versão cinematográfica da célebre montagem de O REI DA VELA por José Celso Martinez Correia, levada a cabo por ele e pelo cineasta Noilton Nunes.

A peça de Oswald de Andrade, escrita em 1933, como se sabe, é um marco do Modernismo brasileiro. Baseia-se na história clássica de Abelardo e Heloísa, adaptada ao Brasil dos anos 1920/30. Um agiota, seu irmão e sua noiva exploram os endividados, aliam-se ao capital estrangeiro, flertam com o fascismo e vivem bizarras aventuras sexuais.

Levada ao palco em 1967 pelo Teatro Oficina, conectou a antropofagia oswaldiana com a resistência à ditadura militar. A montagem revolucionou o teatro brasileiro e foi censurada em 1968. Voltou à cena em 1971 no Teatro João Caetano, no Rio, versão esta que se vê no filme. A tumultuada produção apenas começava sua história. Zé Celso continuou filmando dentro e fora do teatro até ser preso na invasão do Oficina pela polícia e partir para o exílio em 1974, levando consigo os copiões.

Depois de passarem por vários países, os originais voltaram ao Brasil em 1980, pelas mãos de Celso Amorim. Noilton Nunes foi então convidado a ajudar na finalização. Mas a dupla seguiu acrescentando materiais de arquivo e cenas contemporâneas, como as greves do ABC. Em 1982, eles ainda lutavam pela liberação do filme na censura. O lançamento, enfim, se deu no Festival de Berlim daquele ano. Em seguida, em Gramado, ganhou o Prêmio do Júri, entre outros.

Zé Celso e Noilton

Chegou aos cinemas como uma peça de resistência à ditadura em estado puro e alucinado. Agit prop, polifonia e metalinguagem em duas horas e meia de invenção e acinte ao imperialismo, à moral burguesa e à ordem militar. As alegorias procuram livremente os cenários adequados, seja no palco, seja nas ruas, nas praias, nos eventos políticos. É teatro, performance, happening, artes plásticas, cinema de montagem, documentário… Um vendaval barroco.

Para Zé Celso, tratava-se de “um grande despacho coletivo. Simbólico, agressivo e profundamente poético, grotesco e essencialmente singelo”. Noilton Nunes destaca a atualidade do filme: “O Rei da Vela anuncia a Revolução Social no Brasil. A peça é perfeita para iluminar os caminhos nebulosos dos dias de hoje, quando enfrentamos o neofascismo tropical”.

Paulo Leminski, na época do lançamento, definiu o filme como “um macro-produto cultural, um gigantesco ideograma da coisa brasílica, montado com materiais diversos, de natureza heterogênea, de épocas diferentes, que ainda por cima nos chega todo furado de balas das refregas de anos contra a censura, a conspiração do silêncio, a má vontade dos bem pensantes, a inveja, o preconceito e outros pecados capitais. É modernismo de 22, antropofagia de Tarsila, comunismo militante dos anos 30, Cinema Novo, Concretismo, Oficina, Tropicália, Canudos tomando Brasília”.

Veja o filme:

Um comentário sobre “Do palco à tela, “O Rei da Vela”

  1. Não vi o filme, assisti à peça, no Oficina, quando a gente entrava no teatro – sobretudo os que eram a resistência mesma, Oficina, de Arena e Galpão – sem saber se ia sair.
    Vai ser interessante ver o filme.

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