Sessão da tarde com Woody Allen

O FESTIVAL DO AMOR no streaming

“Embrulhe seus problemas em sonhos e sonhe seus problema pra longe”, diz a canção Wrap Your Troubles in Dreams, com que Woody Allen abre e fecha O Festival do Amor (Rifkin’s Festival). A escolha não podia ser mais sintomática. Allen está procurando um escape de suas atribulações familiares e do cancelamento sofrido da parcela hipocritamente moralista de Hollywood. Como já fez na década de 2000, refugiou-se na Europa, mais precisamente na bela cidade costeira de San Sebastián, no Norte da Espanha.

Ali se realiza um dos mais importantes e charmosos festivais de cinema do continente. Durante uma edição fictícia do evento, mais um alterego do cineasta vive a aventura romântica que a rotina de sua realidade lhe nega. Mort Rifkin (Wallace Shawn) é um protoescritor e ex-professor de Cinema que divide com Allen diversas características: judeu, hipocondríaco, passado da idade, pouco atraente e pateticamente apaixonado pelos “grandes clássicos do cinema de arte europeu”. Com a agravante de o ator ter a língua presa. Mort vai ao festival acompanhando a mulher Sue (Gina Gershon), uma fogosa assessora de publicidade que começa a flertar com seu cliente, o pretensioso diretor francês Philippe (Louis Garrel). Mort, por sua vez, encanta-se pela Dra. Jo Rojas (Elena Anaya), a cardiologista que o atende numa de suas costumeiras emergências paranoicas.

Está formado o quadrilátero amoroso que favorece caminhadas turísticas por San Sebastián e os habilidosos diálogos que consagraram as comédias românticas do diretor. Entre algumas falas irresistíveis, destaca-se uma hilária leitura do Novo Testamento, que acaba por concluir que Jesus deveria ter ressuscitado não na Sexta da Paixão, mas no Dia do Trabalho. Até aí, Allen está no seu elemento. Um olhar derrisório para consigo mesmo, irônico para com seus potenciais rivais e fascinado pela beleza das cidades e das mulheres. A principal novidade de Rifkin’s Festival são os sonhos e devaneios de Mort, atravessados pelos filmes que cultua.

Assim é que ele vai projetando sua vivência em cenas de Cidadão Kane (a única exceção americana), Oito e Meio, Jules e Jim, Um Homem, uma Mulher, Acossado, Persona, Morangos Silvestres, O Anjo Exterminador e O Sétimo Selo. A fotografia de Vittorio Storaro mimetiza à perfeição o estilo de cada um desses filmes monocromáticos, enquanto de resto banha San Sebastián na luz cálida, tendendo ao dourado, que vem caracterizando suas recentes parcerias com Allen.

Esse dispositivo, apesar de cinefilicamente simpático, soa um tanto kitsch, como aliás já acontecia com o deslumbramento de Allen diante da cultura francesa em Meia-Noite em Paris. Além disso, poucas dessas inserções parecem de fato criativas, como é o caso da Morte de O Sétimo Selo (Cristoph Waltz) caindo em depressão na conversa com Mort e recomendando-lhe exercícios físicos e alimentação balanceada.

Feitos esses descontos, é inegável que San Sebastián fez muito bem a Woody Allen. A filmagem certamente foi prazerosa, e boa parte desse prazer chega até nós de modo leve e despretensioso. O Festival do Amor é sessão da tarde com uma cereja de inteligência.   

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