O velho matador cai na estrada

KING KONG EN ASUNCIÓN no streaming

O pernambucano Camilo Cavalcante (A História da Eternidade) tem aqui o seu melhor longa-metragem, na minha opinião. Embalado por uma narração poética no idioma guarani, King Kong en Asunción conta “uma história de ruínas” – a de um velho matador profissional em ação nas profundezas da América do Sul. Na verdade, “o velho” sem nome está em vias de largar o ofício depois de exterminar um homem no ermo alvíssimo do Salar de Uyuni, na Bolívia.

Dali ele sai em longas caminhadas em direção ao Paraguai, onde pretende rever a única mulher que amou e com quem tem uma filha que nunca conheceu. No caminho, é assombrado pelos fantasmas das pessoas que matou e reencontra um barbeiro amigo (Fernando Teixeira) para uma “despedida” com muito álcool e algumas prostitutas. É um personagem emblemático da violência rural, que o traumatizou na infância e plantou o ódio em seu coração. Aos poucos vamos compreendendo as raízes de sua solidão e de sua estreita convivência com a morte. “Às vezes sente que é bicho”, informa a narração a cargo da atriz paraguaia Ana Ivanova.

O velho tem horror aos poderosos a que serve eliminando desafetos. Uma cena na suíte presidencial de um hotel em Assunção ilustra exemplarmente esse desprezo. Uma última encomenda de morte talvez não venha a ser cumprida.

King Kong en Asunción é um road movie deslumbrante pelas estradas do continente. Além do espetacular Salar de Uyuni, o andarilho passa pelo cemitério de trens de Potosí, pelo altiplano e por mercados bolivianos, pelas estradas do Chaco no Paraguai, por antigos pueblitos melancólicos e trechos de grande beleza natural.

No papel dessa alma perdida no silêncio e na amargura está o ator brasiliense Andrade Júnior, conhecido também por personificar um Papai Noel tradicional em Brasília. Ele faleceu em 2019, antes de ver o filme finalizado. Sua figura corpulenta e atarracada deixa ver um lastro de doçura por trás da impiedade do personagem. Talvez não houvesse forma melhor de dizer adeus ao cinema.

Com o capricho visual e a solidez de mise-en-scène que caracterizam seus filmes, Camilo Cavalcante construiu uma narrativa tênue, mas cativante. O filme tem um punhado de momentos memoráveis e uma dicção lírica que evoca a ancestralidade latino-americana em contraponto à rispidez e à desagregação da realidade contemporânea.

>> King Kong en Asunción está na HBO Max.   

Um comentário sobre “O velho matador cai na estrada

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s