Road movie identitário

LOLA E O MAR no streaming

Esse filme belga traz uma interessante variação do tema da relação entre jovem trans e seus pais. Aos 18 anos, Lola, ex-Lionel, comparece ao funeral da mãe e reencontra o pai, que a havia expulsado de casa tempos atrás. A urna com as cinzas da mãe será o elemento de discórdia e ao mesmo tempo de aproximação que levará os dois numa viagem de carro até a casa de praia da família. Um trajeto conveniente para a revelação paulatina da situação familiar.

Lola fica entre dois personagens que se opõem. Um deles presente: o pai transfóbico que não consegue superar seu preconceito e só trata Lola no masculino. O outro ausente, mas que se presentifica através de músicas e de referências: a mãe que visitava a filha às escondidas e a ajudava no processo de redesignação sexual. Esse é um choque que se observa no seio de tantas famílias quando se trata de compreender a identidade de gênero.

Também autor do roteiro, o diretor Laurent Micheli consegue condensar várias demandas no curso da viagem e suas escalas. Para o pai, o desconforto de Lola se resume a uma questão de vontade, quando não a um transtorno mental. Aquilo representa um sofrimento também para ele, o que no filme entra como mais um item para discussão. Lola, por sua vez, reage com agressividade correspondente, deixando claro que o conflito é inevitável. O conturbado pernoite num bar de encontros apresenta uma alternativa de aceitação e ternura fora dos laços familiares. Esse tipo de cotejo é também explorado no olhar melancólico com que Lola contempla famílias e crianças aparentemente harmônicas.

O carro desempenha o papel que se espera de um carro num road movie – é um terceiro personagem central, que também trepida e se incendeia por dentro. Num momento belíssimo, os raios e as nuvens pesadas de uma tormenta emolduram no para-brisa o reflexo de Lola no retrovisor, evocando toda a eletricidade que corre ali dentro. Em outro, Micheli não resiste ao clichê do rosto fora da janela ao vento para expressar um instante de júbilo.

Os flashbacks pontuais do passado de Lola vítima de bullying, um tanto óbvios, contrastam com a maneira sutil e indireta com que o filme sustenta sua exposição. O forte de Lola e o Mar (Lola Vers la Mer) é sua sensibilidade em sondar os sentimentos da moça sem muito alarde. É onde entra a performance serena e amável da estreante Mya Bollaers. Ela é tratada com carinho pela câmera de Olivier Boonjing em planos muito próximos, às vezes quase épicos, e retribui com beleza e um talento natural.

>> Lola e o Mar está na plataforma Filmicca.   

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