“O melhor filme do mundo”

Um assunto mobilizou a comunidade cinéfila internacional na semana passada. Foi a divulgação da oitava lista de melhores filmes de todos os tempos pela prestigiosa revista inglesa Sight and Sound, editada pelo British Film Institute. Realizada a cada 10 anos desde 1952 através de enquete com críticos, curadores, programadores, arquivistas e acadêmicos de todo o mundo, a eleição costuma ser vista como um paradigma de qualidade. Eu fiquei muito honrado de ter sido convidado pela primeira vez a ser um dos votantes, junto com mais 1.638 participantes, o dobro de 2012.

Veja a lista aqui.

Mas o que fez dessa lista talvez a mais surpreendente de todas foi a aparição de Jeanne Dielman – 23 Quai du Commerce, 1080 Bruxelles, de Chantal Akerman, em primeiro lugar, desbancando o longo reinado de Cidadão Kane (desde 1962), superado somente em 2012 por Um Corpo que Cai. Dessa vez, os filmes de Welles e Hitchcock ficaram, respectivamente, em terceiro e segundo lugares.

Foi muito celebrado o fato de que o filme de uma mulher e obra tão radical quanto Jeanne Dielman quebrasse um cânone tão estabilizado. Valendo destacar também que Bom Trabalho, de Claire Denis, emplacou em sétimo lugar. Mas houve também muita perplexidade devido ao caráter pouco popular da longuíssima observação de Chantal das rotinas de uma mulher aparentemente comum durante quase três horas e meia.

De fato, Jeanne Dielman só pode ser devidamente apreciado se levarmos em conta alguns fatores na confluência entre as vanguardas que influenciavam o cinema em 1975. Nascida na Bélgica de pais judeus que deixaram a Polônia para fugir do nazismo, Chantal Akerman viveu em Nova York em 1971 e 1972, quando frequentou o Anthology Film Archives, envolveu-se com dança minimalista, assistiu aos filmes de longa duração de Andy Warhol, aos filmes-diário de Jonas Mekas e a obras do cinema estrutural.

Vale lembrar que na primeira metade dos anos 1970 o cinema direto estadunidense ainda exercia forte influência não só sobre o documentário, mas também sobre a ficção. Jeanne Dielman leva todos esses influxos a um patamar extremamente ousado, ainda que guardando laços firmes com a cena realista.

How does “Jeanne Dielman, 23 quai du Commerce” benefit from its over 3 hour runtime? | Watch | The Take

A atriz Delphine Seyrig (O Ano Passado em Marienbad, O Discreto Charme da Burguesia) vive essa viúva elegante e metódica que passa mais de três horas de filme executando tarefas domésticas, fazendo refeições com o filho adolescente, indo às compras e, como uma espécie de “Bela da Tarde”, recebendo homens em seu quarto. A tudo a câmera observa de pontos de vista fixos, a certa distância, nos moldes clássicos da “mosca na parede”. Não há movimentos de câmera, closes, trilha sonora, nem dialogação explicativa.

Somos carregados para uma experiência diferente daquela a que estamos habituados com o tempo condensado do cinema e as motivações explícitas de personagens. Se Jeanne está descascando batatas, vemos Delphine descascar batatas em toda a sua veracidade e temporalidade. Se Jeanne está sentada olhando para o vazio, é isso que vemos Delphine fazer pelo tempo que pareça natural. As fronteiras entre atriz e personagem tendem a desaparecer. A nudez no banho não tem nada de erótico, assim como a arrumação de uma cama não tem significado para além daquilo que se vê.

Durante as filmagens, o ator Sami Frey fez um registro bruto das conversas entre Chantal e Delphine. Um tanto intimidada pelas exigências da grande dama e pelo testemunho da câmera nos bastidores, a jovem Chantal insistia em não psicologizar Jeanne, não explicitar razões para seu comportamento banal, nem providenciar elipses onde o tempo deveria se estender diante do espectador. Esse precioso making of recebeu o título de Autour de Jeanne Dielman.

A ação do filme de Chantal se desdobra em três dias aparentemente sucessivos. No primeiro dia, testemunhamos a forma metódica com que Jeanne conduz sua rotina, da disposição da louça à economia no uso das lâmpadas. A estabilidade das tomadas reforça esse caráter obsessivo e repetitivo. Percebemos também a relação quase muda entre mãe e filho.

No segundo dia, começam a surgir, muito gradativamente, sinais de disrupção na ordem das coisas. Uma colher que cai no chão, um botão que fica desabotoado no roupão, uma luz que é esquecida acesa, um gesto interrompido a meio caminho. A expressão de Delphine Seyrig tem aqui um papel de enorme sutileza, trocando aos poucos a serenidade impassível por pequenos sinais de inquietação e cansaço.

(Atenção! Spoiler no próximo parágrafo antes da foto)

Esses sinais se avolumam no terceiro dia, culminando com o assassinato prosaico do parceiro sexual que, contra sua vontade, acabara de levá-la ao orgasmo. Esse desfecho inesperado não somente informa sobre o processo interior de Jeanne relativamente a sua condição de mulher servidora, como também ressignifica o uso dos apetrechos domésticos, no caso a tesoura.

JEANNE DIELMAN, 23 QUAI DU COMMERCE, 1080 BRUXELLES - Hammer to Nail

Jeanne Dielman se agrega a uma proposta feminista não pela via da militância, nem do discurso (isso quem faz é a atriz numa entrevista gravada por Sami Frey no making of). Chantal avança em seara mais extrema, fazendo com que a violência contida da personagem finalmente se manifeste de maneira drástica. Jeanne, mãe e puta ao mesmo tempo, parece respirar enfim, pela primeira vez, na cena final, sentada numa poltrona à espera da realidade a seguir.

Assim como Hitchcock, Chantal Akerman não viveu para ver seu filme chegar ao topo da lista da Sight and Sound. Vítima de depressão, suicidou-se em 2015. A jovenzinha tímida mas valente que filmava Jeanne Dielman aos 25 anos, com uma pequena equipe num apartamento de Bruxelas, haveria de ser cultuada como uma diva do cinema experimental.

>> Jeanne Dielman está na plataforma Filmicca.

Minha lista

Jeanne Dielman, que acho um filme curioso e estranhamente fascinante, não estava na minha lista fornecida à Sight and Sound. Cada participante era solicitado a indicar seus 10 filmes prediletos. Do meu top ten, seis títulos entraram no panteão final. Foram eles:

Cidadão Kane
2001: Uma Odisseia no Espaço
O Homem com a Câmera
Close-up
Oito e Meio
Encouraçado Potemkin

Ficaram de fora:

Cabra Marcado para Morrer
Morangos Silvestres
Lavoura Arcaica
Memórias do Subdesenvolvimento

A seguir, as justificativas que apresentei para cada filme, na minha ordem de preferência:

Oito e Meio
Federico Fellini
Otto e Mezzo sintetiza o cinema moderno em termos de invenção narrativa e reflexão sobre a arte cinematográfica. A crise do cineasta permite entrever as dúvidas, fragilidades e fantasmas envolvidos no processo de criação, pondo em xeque a ideia de um autor onisciente e seguro no seu métier. Fellini desenvolve, ainda, um estudo penetrante sobre a psicologia do artista, projetando-a no seu alter ego vivido por Marcello Mastroianni. Além disso, o filme condensa vários ingredientes típicos do universo felliniano, como a indústria de massa, o circo, a ciranda de afetos e o mundo artificial propiciado pela arte.

Cidadão Kane
Orson Welles
O tempo passa, e o manancial de ideias e influências de Citizen Kane parece mesmo inesgotável. O choque causado por Orson Welles no cinema clássico tornou o filme eterno. À parte as polêmicas em relação à autoria, seu poder de impactar continua imenso. Seja pela fragmentação dos pontos de vista, seja pela relação oblíqua com os modelos tomados da realidade, seja ainda pelos prodígios técnicos e artísticos da realização, esta é uma obra imune ao envelhecimento.

Cabra Marcado para Morrer
Eduardo Coutinho
Esse clássico do documentário latino-americano é uma experiência singular na relação entre Cinema e História. Quase vinte anos depois de ter seu projeto ficcional e pedagógico interrompido pelo golpe militar de 1964 no Brasil, Coutinho retomou o material filmado e os atores naturais de antes como base para um documentário sobre o esfacelamento de uma família e de uma memória política durante o período da ditadura. Um filme único na confrontação entre dois tempos históricos e dois modelos de cinema. Tratava-se de recolher os fios de uma memória que se dispersou, tanto no povo quanto na cabeça do realizador. Disso resulta uma reflexão implícita sobre a influência das circunstâncias na verdade passível de ser colhida por um documentário.

O Homem com a Câmera
Dziga Vertov
Se Encouraçado Potemkin pode ser considerado o “primeiro filme-teoria” do cinema de ficção, Chelovek s kino-apparatom deve ser tomado como seu equivalente para o documentário. O acúmulo de experiências de Vertov com os cinejornais o levou a construir esse caleidoscópio que inaugura o cinema metalinguístico e autorreflexivo. A verdade cinematográfica perdia seu caráter de ilusão transparente para se assumir como construção técnica e mecânica sem intermediações de um intelecto exposto nos intertítulos. O dinamismo da captação e da montagem refletia também o entusiasmo com a era da descoberta da velocidade e o elogio do movimento, pressupostos da modernidade urbana.

Morangos Silvestres
Ingmar Bergman
A mais bela reflexão sobre o envelhecimento no cinema. Bergman presta tributo a Victor Sjöstrom, uma de suas grandes inspirações, projetando nele suas inquietações sobre a degeneração física, a inconsistência das realizações na carreira, os fantasmas deixados para trás na vida e a proximidade da morte. O filme trata o tempo com notável flexibilidade quando reúne o velho Isak Borg com as figuras do seu passado, em ambiente ao mesmo tempo lírico e mórbido. O prólogo com o sonho de Isak é uma das sequências mais marcantes não só da obra do diretor, mas de todo o cinema moderno.

Encouraçado Potemkin
Sergei Eisenstein
Um filme que equivale a toda uma teoria do cinema. Nele, Eisenstein consolidou sua visão da montagem intelectual e semeou uma influência duradoura. A revolta dos marinheiros do Potemkin tornou-se um paradigma do cinema revolucionário. Não apenas pelo conteúdo, mas principalmente pela forma potente como organizou os valores de sua narrativa, criando choques e atrações que comunicavam por si mesmos. A sequência da escadaria de Odessa é uma das mais imitadas do cinema. Da mesma forma, o tipo de montagem propulsora chamou a atenção para o uso métrico e rítmico da sucessão de imagens a fim de obter um sentido subliminar de rebelião.

Memórias do Subdesenvolvimento
Tomás Gutiérrez Alea
Enquanto sua família burguesa parte de Cuba para Miami em 1961, em meio às tensões com os Estados Unidos, um escritor decide permanecer em Havana e observar as mudanças que tomam corpo na cidade e no país. Alea realizou um clássico sobre a condição da América Latina entre os temores do imperialismo e o desejo de autonomia revolucionária. No plano mais particular, o filme examina a interação entre indivíduo e sociedade por meio de um denso painel de memórias e confrontações íntimas do seu protagonista. Em termos formais, Memorias del Subdesarrollo é talvez a melhor absorção da modernidade do cinema dos anos 1960 pela filmografia latino-americana.

Close-Up
Abbas Kiarostami
Um filme seminal para o diálogo entre ficção e documentário, hoje tão em voga. A partir de um fato real – um caso de impostura afetuosa, por assim dizer –, Kiarostami mesclou reconstituição ficcional com recuperação não ficcional, num jogo intrincado que nos deixa sempre na fronteira entre os dois registros. O mestre iraniano conduz esse puzzle com maestria, testando nossa percepção quanto à natureza do que vemos e ouvimos. Close-Up se impõe como uma das mais instigantes propostas sobre o caráter ilusionista do cinema, ao mesmo tempo que documenta um acontecimento verídico e interfere no seu desenrolar.

2001: Uma Odisseia no Espaço
Stanley Kubrick
Ao mesmo tempo espetáculo de ficção científica, especulação antropológica e meditação filosófica, o filme de Kubrick criou um monolito incontornável no seu gênero. Sua estética ditou um padrão para os filmes de viagens espaciais, e a amplidão de sua abordagem tornou-o até hoje insuperável. Seus enigmas alimentaram todo tipo de conjectura, o que o torna fascinante a cada revisão. O corte do osso para a aeronave e a “morte” do computador Hal 9000 não podem faltar em qualquer antologia dos melhores momentos da arte cinematográfica.

Lavoura Arcaica
Luiz Fernando Carvalho
Obra-prima absoluta do cinema brasileiro contemporâneo, esta versão do livro homônimo de Raduan Nassar é bem mais que uma simples adaptação literária. Trata-se de uma “leitura” do livro “com” a imagem, não “por” ela. O estilo poético da direção leva às alturas do sublime uma história de obsessão incestuosa, sublevação geracional e crise de consciência. Um conto complexo que não se esgota na descrição factual, mas que se lança ao envolvimento sensorial do espectador através da luz, da música e da intensidade das interpretações. O tempo, esculpido com tanta sensibilidade nas dobras do filme, é parte da matéria dos muros, roupas, móveis e objetos que nele aparecem, nus e idosos como ossos. Um filme extraordinário que merece a atenção do mundo.

3 comentários sobre ““O melhor filme do mundo”

  1. Pingback: Balanço do meu ano cinematográfico | carmattos

  2. Mais uma vez somos premiados pela ourivesaria do seu belíssimo texto, levando-nos, “de carona”, por essa prodigiosa viagem pelo universo do Cinema, trazendo-nos informações preciosas sobre a lista dos melhores filmes de todos os tempos, ranqueados pela revista Sight and Sound, do British Film Institute, na indicação dos “experts” por ela consultados, mundo afora, time do qual você fez parte, este ano, motivo de indisfarçável celebração para todos nós. Por outro lado, a surpreendente escolha do filme “Jeanne Dielman – 23 Quai du Commerce, 1080 Bruxelles,” de Chantal Akerman, como número um da lista mundial da Sétima Arte, dando uma “chega pra lá” nos aparentemente intocáveis “Cidadão Kane” e “Um Corpo Que Cai” não deixa de ser surpreendente. Quanto à não inclusão de quatro de seus favoritos, na seleção da Sight & Sound, permitimo-nos deduzir que, excluindo “Morangos Silvestres”, de 1957, que é impecável e sempre mereceu alta visibilidade, mundo afora, além de ser uma realização do genial Ingmar Bergman, nome mais que conhecido, os outros três filmes restantes da sua predileção, talvez não tenham recebido a votação que merecessem, justamente pelo fato de serem criações do Terceiro Mundo, quase sempre vítimas de distribuição precária ou obras de realizadores menos celebrados ou pouco conhecidos, internacionalmente. Quanto à sua belíssima apreciação do filme de Chantal Akerman (diretora de fortes convicções e personagem marcante que esteve no Brasil, em 2009), filmado em apenas cinco semanas, ao custo de 120 mil dólares, concedidos pelo governo belga, estrelado pela extraordinária Delphine Seyrig, confesso que isso motivou-me a uma ampla e detalhada pesquisa sobre essa marcante diretora e suas obras, de quem eu pouco sabia, cujo material, na Internet, é fascinante, a maioria em francês e inglês. Também é digno de ser conhecido o registro do making off “Autour de Jeanne Dielman”, de Sami Frey, por você comentado, disponível em vídeo, na Internet. Curiosamente, sempre que visito Paris, jamais apressado, visito, no Cemitério Montparnasse, como milhões de outras pessoas que amam a Cultura, a derradeira morada de inúmeras celebridades de minha estima, dentre as quais Sartre & Simone de Beauvoir, Júlio Cortázar, Cesar Valejo, Samuel Becket, e as de gente de relevo do Cinema como Jacques Becker, Henri Langlois (com sua lápide toda ilustrada com fotos de gente da Sétima Arte) e Delphine Seyrig, esta, bem próxima da sepultura da família de Charles Baudelaire, numa das alas daquele local. Parabéns por mais este valioso e provocador texto, Carlinhos.

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