A ÚNICA SAÍDA
Existem filmes ruins que ficam ainda piores por serem bem realizados tecnicamente. Para mim, este é o caso do coreano A Única Saída (Eojjeolsuga eobsda / No Other Choice). O diretor Park Chan-wook é cultuado por tratar a violência como um brinquedo na mão de criança malvada. Oldboy, que eu detesto, é considerado um clássico. A Criada, de tão bom, é um ponto fora da curva em sua carreira. Agora ele chega à temporada de premiações com esse novo divertimento mórbido que não perde uma chance de descambar para a chanchada.
A história de um homem desesperado pela perda do emprego e da estabilidade, que decide matar os concorrentes por uma vaga, segue um padrão bastante conhecido de thriller com fundo social. Costa-Gavras, a quem esse filme é dedicado, já tinha feito sua própria e boa versão do romance de Donald E. Westlake com o título O Corte (Le Couperet).
Na Coreia, Man-su (Lee Byung-hun) já foi eleito o Homem-Polpa do Ano na fábrica de papel onde trabalhava, mas está sendo demitido quando a empresa é adquirida por estadunidenses. A família precisa cortar gastos drasticamente, até mesmo – coitados! – a assinatura da Netflix. Sem outra escolha – não me perguntem por quê – além de permanecer no ramo da indústria papeleira, ele se assume como um serial killer.
Os assassinatos são excessivamente complicados como forma de criar um pretenso humor pastelão, que se estende em quiproquós canhestros. Não consigo compreender como alguém pode se divertir com as piadinhas sobre o fim do papel, um flagra extra-conjugal, uma dor de dente renitente, um baile à fantasia ridículo e a sucessão de quedas trapalhonas, embates corporais e esgares ruidosos.
A intenção é clara: satirizar o espírito de competição no mundo corporativo, as mensagens motivacionais, etc. Mas tudo é feito com tamanhas obviedade e grosseria que só se justifica por um conceito de comicidade muito particular coreano. A boa recepção do filme pela crítica internacional, porém, me desmente. Os elogios abundantes à técnica e à suposta mistura de gêneros de Park Chan-wook, sem entrarem no mérito da qualidade dramatúrgica, me espantam não só em relação ao filme, mas principalmente em relação à crítica. Não é todo ano que Seul nos dá um Parasita.
>> A Única Saída está nos cinemas.


