Um hipopótamo na sala de jantar

ZAFARI

Com quantos dias sem comer podemos nos tornar selvagens?

A pergunta de uma personagem soa como epígrafe para Zafari, parábola devastadora sobre a fome. A venezuelana Mariana Rondón, autora do ótimo Pelo Malo, traz mais um de seus filmes repletos de sugestões críticas sobre o funcionamento da sociedade numa América Latina empobrecida e desesperada.

A Venezuela não é citada, mas certamente é referência como cenário de um conjunto residencial dividido em dois blocos de classes sociais diferentes. Uma família de classe média defende seu privilégio de usar a piscina comunitária e tenta vetar a presença de moradores do outro bloco, mais pobre. Mas a convivência forçada vai suscitar relações inesperadas entre pessoas dos dois grupos.

O colapso econômico do país chega à casa de todos. O casal Ana (a chilena Daniela Ramírez) e Edgar (o venezuelano Francisco Denis), acossado pela falta de comida, de água, de luz e de coragem para sair às ruas – coalhadas de motociatas, como na realidade da Caracas chavista – espera vender um terreno para comprar as passagens e sair do país com o filho incomunicável. O êxodo está deixando vários apartamentos vazios, que Ana explora com seu acesso de supervisora do condomínio em busca de comida.

Zafari é o nome do hipopótamo que acaba de chegar para animar o pequeno zoológico vizinho aos prédios. A ironia é grande nesse propósito de oferecer circo à falta de pão. O animal, porém, vai despertar sentimentos negativos, uma vez que é o único a ter suas refeições garantidas.

Pessoas e animais se aproximam cada vez mais na fabulação escrita por Mariana Rondón e Marité Ugas. Além do hipopótamo, flamingos, peixes, uma zebra e pombos marcam presença na fronteira entre a crítica social e o surrealismo. Nesse aspecto, Zafari ostenta um certo parentesco com O Som ao Redor, de Kleber Mendonça Filho, tanto na ambientação do condomínio como nas paranoias de uma classe média que se sente ameaçada.

Há mesmo uma semelhança entre Ana e a personagem de Maeve Jinkings no filme do Kleber, no que tange a uma sensualidade represada em oposição à fogosidade de Natalia, a mulher da classe popular. Talvez haja um certo esquematismo na oposição entre os dois estamentos sociais. Tudo em Ana e Edgar é represamento, como se estivessem numa jaula à maneira dos animais do zoológico, vendo o mundo como voyeurs de binóculo. Em contrapartida, os mais pobres exercem um simulacro de liberdade e dominam melhor a situação.

Isso, porém, não chega a prejudicar o brilho da parábola, que, como tal, requer elementos claros na formulação. A direção de Mariana administra bem a sensação de mal-estar e as tensões que se acumulam ao longo do filme até o desfecho literalmente selvagem.

A produção tem aportes de sete países, incluindo o Brasil, e foi filmada não na Venezuela, mas no Peru, no México e na República Dominicana. A ligação com a terra de Maduro, entretanto, é de origem. O filme se inspira na história real de um hipopótamo encontrado morto no Zoológico de Caracas em 2014, depois de ingerir bolas de borracha que lhe causaram obstrução intestinal.

>> Zafari está nos cinemas.

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