Dez filmes para crianças

Ou melhor: DEZ FILMES PARA VER COM AS CRIANÇAS

Helvécio Ratton, diretor do documentário O Mineiro e o Queijo, tem um interesse especial pelo cinema infantil. Ele mesmo já dirigiu três: A Dança dos Bonecos, Menino Maluquinho e Pequenas Histórias. Nesse texto inédito, apontando já para a Semana da Criança, ele destaca e comenta dez filmes que “atiçam a inteligência das crianças e tocam seus sentimentos”. No final, eu me encarrego de fazer um acréscimo:   

O grande desafio dos filmes infantis, ou filmes dirigidos a todos os públicos, como prefiro chamá-los, é serem capazes de entreter tanto as crianças quanto os adultos que assistem ao filme com elas. São raros os filmes que conseguem a proeza de fazer o público infantil mergulhar em sua fantasia ou aventura e, ao mesmo tempo, seduzir os adultos com sutilezas e referências que só nós compreendemos, o que nos faz sentir co-autores da própria narrativa. Assistir filmes assim com as crianças enriquece a elas e a nós, e possibilita uma troca de opiniões e emoções que transforma o tempo que passamos frente à tela em um momento mágico. Nos tornamos companheiros de uma mesma viagem.

Mas não é fácil encontrar filmes assim. A grande maioria são histórias mal contadas e mal cuidadas, que muitas vezes funcionam apenas como vitrines de produtos dirigidos ao público infantil. Nesses filmes a criança não é tratada como espectador de luxo, mas como consumidor de lixo.

Na lista abaixo estão filmes a que assisti na infância  ou anos mais tarde com minhas filhas. São filmes de épocas e estéticas diferentes, mas que ficaram gravados na retina e no coração. São dez filmes que atiçam a inteligência das crianças e tocam seus sentimentos. Dez filmes com alma.

O Mágico de Oz, Victor Fleming (1939)
Um clássico do cinema americano, o musical conta a história da menina Dorothy e seus três companheiros de jornada: um espantalho sem cérebro, um homem de lata sem coração e um leão medroso,  que buscam algo que não sabem que já possuem. Produzido há mais de 60 anos, O Mágico de Oz não envelhece, como os verdadeiros contos de fada.

ET – O Extra-Terrestre, Steven Spielberg (1982)
Um pequeno ser extra-terrestre cai em nosso planeta e é acolhido por um menino que o esconde em sua casa. A moderna fábula de Spielberg trata de sentimentos de abandono e rejeição, e traz uma das cenas mais emocionantes da história do cinema, quando a bicicleta do menino, com o ET a bordo, começa a voar e se recorta contra a lua.

Meu Tio, Jacques Tati (1958)
Com a cumplicidade do sobrinho, um tio excêntrico e um tanto desligado bagunça a vida de uma família rica que vive rodeada de modernidades inúteis. Dirigido e interpretado pelo genial comediante francês Jacques Tati, o filme é uma sátira bem humorada dos costumes burgueses, onde se dá mais importância às aparências do que aos verdadeiros valores humanos.

Dumbo, produção de Walt Disney (1941)
Além de ser um dos melhores filmes de animação da Disney, o que não é pouco, Dumbo é um dos melhores filmes de todos os tempos. A história do pequeno elefante de grandes orelhas, ridicularizado por todos e depois idolatrado por sua capacidade de voar, é uma fábula sobre a superação de obstáculos e o amor entre mãe e filho. Algumas cenas são antológicas, como o delírio alcoólico de Dumbo e o ratinho Timóteo, e quando os urubus o ensinam a voar.

Pele de Asno, Jacques Demy (1970)
Adaptação do célebre conto de fadas de Charles Perrault, tem uma jovem e linda Catherine Deneuve como a princesa com quem o pai quer se  casar e por isso é obrigada a fugir dele. A direção refinada de Jacques Demy soube utilizar bem os castelos e cenários da França para dar um clima de realidade à fantasia. Assim como o conto que lhe deu origem, o filme se mantém sempre atual, expondo sentimentos que parecem não mudar com o tempo.

Branca de Neve e os Sete Anões, produção de Walt Disney (1937)
Primeiro desenho animado de longa-metragem dos estúdios Disney, Branca de Neve estabeleceu um padrão de animação que poucos filmes puderam acompanhar, mesmo os realizados depois pela própria Disney. A cena em que a madrasta se transforma em bruxa é de uma força dramática impressionante, uma das melhores representações do mal mostradas até hoje no cinema.

O Balão Vermelho,  Albert Lamorisse (1956)
Uma pequena obra-prima, este filme de curta-metragem conta a relação inesperada entre um menino e um balão que teima em segui-lo pelas ruas de Paris. Utilizando recursos simples, mas de forma muito engenhosa, o filme nos convence de que o balão realmente tem vida própria para extrair daí humor e poesia. O final é belíssimo, com milhares de balões voando no céu de Paris.

A Guerra dos Botões, Yves Robert (1962)
No interior da França, dois bandos de meninos combatem entre si, e os troféus das batalhas são os botões das roupas dos perdedores. Nessa guerra de meninos, como nas outras,  há fracos e fortes, corajosos e covardes, e os valores do grupo levam as crianças a entrarem em conflito com suas famílias e com a escola. Um ótimo roteiro que deu origem a um filme humanista e bem realizado.

Um Dia, um Gato, Vojtech Jasny (1963)
O personagem central do filme é um gato que tem o dom de enxergar o caráter dos homens. Aos olhos desse gato, as pessoas ganham cores diferentes segundo suas virtudes ou defeitos. Os invejosos ficam amarelos, os apaixonados vermelhos e o filme vai por aí afora, falando do comportamento humano de forma leve e divertida, mas crítica ao mesmo tempo. Produzido na Tchecoslováquia socialista dos anos 60, no final vencem os bons e os falsos são desmascarados, como nas boas fábulas do gênero.

Toy Story, John Lasseter  (1995)
Primeiro filme de longa-metragem totalmente criado no computador, conta a história dos brinquedos de um menino, que têm medo de serem abandonados quando seu dono ganha brinquedos novos. Sentimentos como ciúme e rejeição, tão conhecidos das crianças, são muito bem trabalhados no filme. Toy Story surpreende pelo poder de comunicação dos personagens e pela alta qualidade da animação. Foi um salto enorme, um marco em relação às experiências anteriores de animação via computador.
Helvécio Ratton

Acrescento por minha conta um dos filmes de Ratton, que é um dos melhores divertimentos infantis já feitos no Brasil:

A Dança dos Bonecos, Helvécio Ratton (1986)
Wilson Grey estava impagável no papel de Mr. Kapa, metade mais velha de uma dupla mambembe que percorria as montanhas de Minas com um furgão de cores berrantes. Quando um elixir mágico dava vida aos bonecos de madeira de uma menina, começava uma aventura pela posse dos tais bonecos, envolvendo ainda um supervilão fabricante de brinquedos. Como se vê, o tema da indústria x artesanato, presente em O Mineiro e o Queijo, já então estava presente na obra do diretor. Eu estava no júri do Festival de Gramado de 1987 que premiou Wilson Grey como melhor ator e deu o prêmio especial do júri a Ratton “pela dignidade e pureza na utilização dos recursos cinematográficos para expressar o mundo infantil”. O filme ganhou ainda o prêmio do júri popular e mais um bocado de candangos no Festival de Brasília.

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