Cinema e cultura da violência

Texto de Maurice Capovilla, especial para o blog

O que leva um menino de 10 anos a atirar na professora pelas costas e em seguida se suicidar? Será que a violência não está mais entranhada em nossa cultura do que pensamos?  Está disseminada na sociedade de forma explícita nos conflitos armados mas também  aparece diluída de forma oculta em meio ao comportamento humano. Será que o cinema não tem alguma coisa a ver com isso?

Uma das fontes da sua expressão está enraizada na história  a partir da importância do revólver, instrumento que deixou de ser simples objeto de cena para se tornar elemento essencial da ação cinematográfica.  Podemos dizer que essa arma, ligada às cenas de assaltos a diligências e aos trens, no prelúdio do nascimento do cinema,  assume a função simbólica e fundamental na estrutura dramática desse gênero de filmes e se torna um elemento importante da linguagem.

O historiador francês Georges Sadoul nos informa que, em 1903,  no filme The Great Train Robbery,  o diretor Edwin S. Porter,  ao filmar  uma perseguição de mocinhos a cavalo em tiroteio com  bandidos num trem, é obrigado a cortar a ação em planos e contraplanos em dois espaços diferentes, e nesse processo descobre a função da “ação paralela”, um dos elementos essenciais da montagem.  O tiroteio está na origem dos  Westerns, que repercutiam na  tela uma dramaturgia realista e de reconstituição documentária da conquista do Oeste americano.  O gênero desenvolve-se na temática variada de conflitos armados entre índios e colonizadores, duelos entre xerifes e bandidos,  até chegar à Guerra da Secessão com o clássico  The Birth of a Nation, de 1915,  obra-prima de David Griffith. O revólver  e a pistola  Smith & Wesson de 1852 e a carabina Winchester de 1892  tornaram-se objetos  míticos, incorporados ao acervo dos estúdios de Hollywood, pois eram  indispensáveis para a maioria das suas produções.

No bang bang americano das primeiras décadas, o revólver é o instrumento que impõe a lei e serve para resolver conflitos. Mesmo sem estar incorporado ao som,  cumpre a função de eliminar, em duelo justo, sujeito a regras rígidas, o personagem que feriu a lei, matou à traição ou tentou impor sua vontade à população. Quando surgem as quadrilhas, a cidade  foge espavorida ou se defende ao lado do xerife. Em todos os casos o revólver é um instrumento da justiça e não pode ser utilizado em vão. Está inserido num contexto de extrema carência, no avanço da colonização, nas cidades sujeitas à violência e diante de culturas indígenas estranhas aos hábitos  dos pioneiros que avançavam Oeste a dentro. A justiça, extremamente frágil,  representada por juízes itinerantes, tribunais reunidos em saloons e julgamentos sem direito  de defesa, cumpre sua função mas tendo ao lado da prisão sempre uma forca.  O cinema nada mais faz do que reproduzir com certa fidelidade a realidade da época.

Pergunta-se qual a importância do revólver  no cinema de ação. Grande parte da dramaturgia, seja literária ou cinematográfica, está baseada no conflito. A literatura descreve a situação e pressupõe a participação da imaginação do leitor para construir  o drama,  o cinema materializa a imaginação do espectador com a imagem em movimento para expor ao vivo o drama. A narrativa verbalizada de um conflito é por vezes uma única  frase, o clímax de um conflito cinematográfico é quase sempre um tiro de revólver.  O cinema japonês, na vertente de um conflito,  enraizado na tradição de sua arte guerreira, usa a espada do samurai. Na França, o objeto é o florete, arma branca usada na esgrima. Isso induz a pensar que cada cultura tem sua arma própria para resolver seus conflitos, com regras ou não. Mas em todos os casos o resultado tem como finalidade a morte.

Na evolução dos tempos, as armas no cinema se tornam mais sofisticadas e letais,    isso porque seu uso real se transporta para as grandes cidades. Incorporada ao som, a arma de fogo adquire status de efeito estético  e performático indispensável para o filme de ação. O cinema acompanha  os movimentos sociais pois será sempre reflexo do real ou do imaginário popular. Um exemplo são os  thrillers expondo os conflitos  da Depressão dos anos 30 durante a Lei Seca, em Nova Iorque e  Chicago.  Surge então o novo instrumento dos mafiosos para a solução dos conflitos, a metralhadora. Instala-se nesse momento  o culto da violência no seu estado mais brutal,  quando valoriza-se o gangster e  humaniza-se o bandido.  O exemplo maior é Al Capone, consagrado no cinema por atores de prestígio, como  Wallace Beery, Paul Muni, Barry Sullivan, Rod Steiger, Ben Gazzara, Robert De Niro. Os embates são mais vigorosos e chega-se à reconstituição  do Massacre de São Valentim, ocorrido em Chicago em 14 de fevereiro de 1929, que resultou na morte de sete gangsters da quadrilha de Bug Moran a mando de Capone. O realismo do cinema aliou-se à brutalidade da situação, que chocou e envolveu a população.

Nos anos 40 o cinema de ação sai dos guetos do crime organizado e se incorpora à Segunda Guerra Mundial. Os filmes patrocinados pelo Departamento de Estado, feitos para divulgar para  a sociedade a participação do país na luta contra o nazismo, ajudam também a confirmar a validade e o direito  indiscutível do uso da arma, seja individual ou coletiva, do revólver ao canhão.  A guerra é sempre um bom motivo para exaltar a ação, justificar o uso das armas e compelir a sociedade a aceitar a violência como norma e não como acidente.

Os anos 50 e 60 parecem ter sido um sinal de alento para o cinema americano  buscar múltiplas temáticas para novos públicos, menos afeitos a filmes de impacto e propensos à violência. O musical e a comédia  tiveram seus  grandes momentos, a aventura, a ficção científica, o romance, a feminilidade das atrizes, os valores conservadores e as histórias familiares superaram os dramas policiais no centro da programação. Os anos seguintes  equiparam-se nessa equivalência entre a ação cada vez mais ajustada à criminalidade em contraponto ao humanismo de um cinema que buscou sempre manter sua identidade. Um humanismo que vem dos grandes mestres do passado até os dias de hoje, de Chaplin a  Orson Welles, Frank Capra, Billy Wilder, John Huston, William Wyler, Robert Wise, David Lean, Stanley Kramer, Vincent Minnelli, Robert Altman, Stanley Kubrick, Steven Spielberg e tantos outros.

Maurice Capovilla

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