Pílulas 16

Eu esperava bem menos do LINCOLN de Spielberg. Menos didatismo, menos oficialismo, menos academicismo. Pensando bem, eu esperava isso mesmo: um mastodonte histórico que não viaja bem além-fronteiras. Uma peça de retórica política, longa, verborrágica e confusa, atravessada por piadinhas do século XIX. Aquela coisa de encenar a História norte-americana como se fosse uma peça de Shakespeare, com a diferença de que os do bem se movem e falam com elegância (no caso, os Republicanos da época) e os vilões (Democratas) soam como répteis gaguejantes. Há grandes momentos de interpretação vocal, especialmente de Tommy Lee Jones. E Daniel Day-Lewis, quando não está fazendo seus longos e competentes monólogos extraídos de textos escritos, está enrolado em cobertores como se quisesse dormir. Não duvido nada que tenha dormido em frente à câmera, tão chato era o filme em que atuava. E tem mais: na maior parte do tempo de projeção, Lincoln está articulando compra de votos para aprovar a emenda abolicionista. Não tem quem não se lembre do “mensalão”, mas no caso do “santo presidente americano” todos vão ser “compreensivos” com os métodos heterodoxos.

A HORA MAIS ESCURA é um relato frio, burocrático e supostamente pormenorizado da operação de caçada a Bin Laden, naquele estilo “machinho” da Bigelow. Você é exposto a longas e chatas sessões de tortura, discussões “tensas” entre oficiais sob pressão, flashes de atentados contra ocidentais e por fim um ataque confuso na escuridão, em que não se percebe muito do que está acontecendo. Ou seja, não é um filme espetáculo. Não tem celebração catártica ou patrioteira. Se não cai nessa esparrela, tampouco me pareceu interessante como encenação de um evento simbólico. No fundo, parece um arremedo de documentário para mostrar ao público como foi a penosa e opaca operação. Nem mesmo uma confirmação de que o morto era mesmo Bin Laden o filme arrisca oferecer. Enquanto vencia os aborrecidos 157 minutos, eu o achava cada vez mais inútil.

Pra mim, DJANGO LIVRE é o melhor Tarantino desde JACKIE BROWN, quiçá desde PULP FICTION. Num roteiro maravilhoso, ele junta a paródia do western-spaghetti, que em si já era uma paródia, a um drama potente sobre a escravidão – muito superior, por exemplo, ao blablablá patrioteiro de LINCOLN. São diversas as cenas de antologia, a trilha sonora é simplesmente deslumbrante, assim como o tratamento das imagens. As cenas de relação entre brancos e negros valem por um compêndio antropológico sobre submissão, sadismo, oportunismo e revolta. Por baixo da ação vistosa e sanguinolenta há sempre diálogos reveladores das práticas de um período. Pura diversão, estudo de época e narrativa mitológica são indissociáveis nesse filmaço.

Candidato canadense ao Oscar de filme em língua  estrangeira, rodado na República do Congo por um diretor de ascendência vietnamita (Kim Nguyen), A FEITICEIRA DA GUERRA é um drama pesado que se sustenta nas costas de uma pequena atriz fenomenal, Rachel Mwanza. É incrívelmente certa a medida como ela exprime o horror, a inocência e a ferocidade de uma menina repetidas vezes condenada a ser soldado de guerrilha e por um tempo vista como detentora de poderes mágicos. Parte filme de guerra, parte filme de amor, faz um mergulho sóbrio, embora não muito profundo, na brutalidade da luta de facções e nos mitos de morte africanos. Mulheres poderão se sensibilizar bastante com certas cenas de mutilação física, apesar de tudo ficar mais na sugestão que na exposição.

KON-TIKI, candidato norueguês sem chances ao Oscar de melhor filme estrangeiro, é uma aventura vistosa visualmente mas bastante classicona. Transborda de clichês sobre determinação visionária, conflitos grupais em situações extremas e suspense marítimo. Um expedicionário que não sabia nadar resolve provar que os peruanos foram os primeiros a habitar a Polinésia, refazendo ele mesmo a viagem. Há algumas cenas de tirar o fôlego, mas no fundo parece um AVENTURA DE PI sem o tigre e sem metade do agito. Do ponto de vista da reconstituição, o filme beneficiou-se muito da existência do documentário homônimo que registrou a expedição, dirigido pelo próprio Thor Heyerdahl e vencedor de um Oscar em 1951. A semelhança é notável, a não ser por uma maior “limpeza” da imagem no filme de 2012. A ficção adicionou principalmente as ações que eram apenas descritas oralmente, mas não filmadas, e pormenores de comportamento e convivência na super-jangada.

Lá vou eu na contracorrente dos amigos queridos. Achei esse BARBARA meio fraquinho. Uma dramaturgia aborrecida, uma mise-en-scène excessivamente posada, uma gravidade artificial. E a história daqueles médicos se sacrificando no exílio da Cortina de Ferro me pareceu um respingo tardio de propaganda anticomunista. Gente sensível se desdobrando para sobreviver num regime sem sentimentos. E para isso vale apelar a uma mocinha doente e vilipendiada, um animalzinho ferido pela intolerância dos próceres da Stasi. Ou seja, apenas um melodrama arrastado e superestimado.

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