Do Kaiser ao Peixonauta

luz anima

Eram 20h de sexta-feira e a sala 2 da Fundição Progresso estava lotada de gente ligada à animação brasileira. Os quatro cavaleiros e amazonas do Anima Mundi estavam presentes para o lançamento de dois trabalhos que casualmente se encontraram à perfeição: o número 60 da revista Filme Cultura, ainda na edição digital, e o longa Luz, Anima, Ação!, de Eduardo Calvet.

A pauta da revista dialoga amplamente com o roteiro do filme no levantamento de aspectos históricos e na discussão (ainda que pontual e superficial no filme) das questões contemporâneas da animação no Brasil. Há uma feliz coincidência de autores, personagens e temas entre a revista e o filme.

Luz, Anima, Ação! é a versão longa-metragem de uma série que será exibida pelo Canal Brasil, coprodutor de ambas, ainda este ano. Não é exatamente um “documentário animado”, como consta da sinopse no catálogo do festival, já que a linguagem da animação não contamina o conteúdo documental. Mas, naturalmente, contém um tesouro de imagens animadas. O trabalho de recuperação de materiais incluiu não só a localização de cenas em movimento com animadores históricos, como Luiz Sá, Guy Lebrun e Ypê Nakashima, mas também a recuperação de 16 pequenos filmes, incluindo um trecho do “perdido” As Aventuras de Virgulino, de Luiz Sá. A equipe do filme encontrou até um animador que “herdou” um pequeno trecho desse filme entre os que foram cortados e dados como brinde na compra de projetores (vale a pena ler essa história nesse texto de Antonio Moreno).

O Kaiser

O filme de Eduardo Calvet, produzido por Felipe Haurelhuk, se propõe recontar a história da animação brasileira, dos pioneiros à contemporaneidade, em pouco mais de 90 minutos. É tarefa hercúlea, mas concluída com bom ritmo e muita informação sobre os marcos mais relevantes. Pontuando a narrativa cronológica, vemos flashes do trabalho de oito animadores que se dispuseram a homenagear o que é considerado o nosso primeiro filme completo de animação, O Kaiser (1917), do cartunista Seth. A partir de um único desenho conhecido (acima), o octeto criou vinhetas em diferentes técnicas, que são “costuradas” e apresentadas por inteiro perto do final.

Há uma proposta didático-histórica, em que os animadores se narram a si mesmos e ajudam a contar a trajetória do ofício no país. Aqui e ali, a personalidade de alguns deixa sua marca para além do mero relato. O veterano Stil, por exemplo, agradece à repressão do regime militar por afastá-lo de uma carreira (“triste”, segundo ele) de arquiteto e jogá-lo no desenho animado de resistência política. O gaúcho Otto Guerra celebra o fato de não ter família para sustentar, e com isso poder aplicar suas parcas rendas nos filmes autorais. 

Lá estão, em depoimentos exclusivos, todos os grandes: Maurício de Souza, Walbercy Ribas, Antonio Moreno, Chico Liberato, Marcos Magalhães e a turma do Anima Mundi, Arnaldo Galvão, Alê Abreu, Carlos Saldanha, Ennio Torresan, Marão, Andrés Lieban, etc. Estranhei o fato de não haver um trecho sequer em movimento de Sinfonia Amazônica, o primeiro longa de animação brasileiro, apesar de o filme ser abordado com o merecido destaque.

Sem euforia mas em tom maior, o filme conclui com os êxitos de industrialização e internacionalização do filme animado brasileiro, de que o sucesso fenomenal da série Peixonauta é um exemplo animador.    

Luz, Anima, Ação! passa ainda segunda-feira às 20h no Odeon e quarta-feira às 17h no Oi Futuro Ipanema. Abaixo, um teaser do filme:

Um comentário sobre “Do Kaiser ao Peixonauta

  1. adorei o filme! vi no Odeon na segunda passada. Tinha que passar em outros festivais, escolas e cursos. Fundamental!!!!!!!1

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