O documentarista afetuoso

Amanhã (terça) começa na Caixa Cultural RJ a Mostra Simplesmente Nelson, uma retrospectiva dos filmes de Nelson Pereira dos Santos. A pedido dos organizadores, escrevi esse pequeno texto sobre sua faceta de documentarista para o catálogo do evento.

Nelson com Maria Amélia Buarque de Holanda

Nelson com Maria Amélia Buarque de Holanda

Embora seus filmes mais célebres sejam de ficção, o documentário tem desfrutado de uma importância estratégica na carreira de Nelson Pereira dos Santos. Seu primeiro filme, Juventude (1950), documentava os jovens trabalhadores de São Paulo e foi feito por encomenda do Partido Comunista Brasileiro. Foi quando Nelson descobriu o cinema.

Ainda nos anos 1950, ele dirigiu cinejornais para Jean Manzon e I. Rozemberg. Na década seguinte, supervisionou seus alunos da Universidade de Brasília na realização de Fala, Brasília, curta documental sobre língua e sotaques que é tido como o marco zero da cinematografia brasiliense. Outros curtas tratariam, ainda, de Machado de Assis, de Mario Gruber, da história do Jornal do Brasil (Um Moço de 74 Anos), de alfabetização, de bombeiros e até da criação de uma base científica na Amazônia (Cidade-laboratório Humboldt).     

A privacidade de grandes documentaristas como Jean Rouch, Joris Ivens e John Grierson não foi estranha às andanças de Nelson. Ele conheceu Grierson, por exemplo, em 1958, em Montevidéu. Depois teve a oportunidade de ciceroneá-lo no Rio durante dez dias. Nelson costuma recordar que, diante da quantidade de “fusões” vistas num documentário exibido em São Paulo, Grierson exortava o autor, em altos brados, a decidir-se entre ficção e realidade: “Make up your mind! Make up your mind!”.

Depois de cruzar a linha dos 70 anos, o mestre desenvolveu uma relação ainda mais íntima com a linguagem da não-ficção. Marcou seu espaço como um documentarista afetuoso, interessado na vida e na obra de artistas e pensadores que muito admira. Meu Compadre Zé Keti é um curta reminiscente do grande amigo sambista que inspirou o argumento de Rio Zona Norte e foi ator de vários filmes seus.

Gilberto Freyre e Casa Grande e Senzala foram objetos de uma minissérie de TV. Tanto a biografia de Freyre como o seu ideário nacionalista que alimentou todo o romance nordestino e as ciências sociais no Brasil são expansivamente apresentados por um amigo e profundo conhecedor, Edson Nery da Fonseca. Nesse encontro de dois entusiastas, Edson e Nelson, é como se a informalidade e o tempero incrementado do estilo de Gilberto se comunicassem aos programas.

Sérgio Buarque de Hollanda e Tom Jobim foram merecedores de dois dípticos cinematográficos. Raízes do Brasil é um retrato do “Serjão”, que conta com farta participação de seus familiares. Nessa vinculação doméstica, o procedimento se avizinha do famoso conceito criado por Sérgio no livro Raízes do Brasil, o do “homem cordial” – aquele que baseia sua vida de cidadão nos laços de amizade e intimidade. Nelson Pereira dos Santos personifica de certa maneira os aspectos positivos do brasileiro cordial, pautando-se por uma utilização generosa do instrumental do documentário, inteiramente fundada na simpatia.

Para abordar Tom Jobim, Nelson escolheu separar bem as coisas: em A Música Segundo Tom Jobim, a ausência de qualquer comentário, entrevista ou narração exprime o desejo de substituir toda retórica pela simples e imperiosa presença da música do nosso maior compositor popular. Já em A Luz do Tom, a música passa a um segundo plano, cedendo a primazia para as histórias de Tom segundo sua irmã, uma ex-mulher e a viúva.

O nosso idioma, “personagem” importante de tantos filmes de Nelson, voltou a protagonizar um documentário com Português, a Língua do Brasil, realizado com seus pares da Academia Brasileira de Letras. Com esse filme, de alguma maneira Nelson prestou um tributo à literatura brasileira, que tanto frequentou seu cinema e inspirou suas formas narrativas.

O perfil do Nelson documentarista, enfim, não estaria completo se não considerássemos a fina observação etnográfica que perpassa alguns de seus filmes ficcionais. Vidas Secas, por exemplo, é também um grande “documentário” sobre o Nordeste, assim como Amuleto de Ogum sintetiza aspectos da vida na Baixada Fluminense. Se todo grande filme de ficção, como disse Godard, tende ao documentário, então estamos aqui muito bem servidos.  

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