Três inéditos + 1

O CAPITAL, último filme de Costa-Gavras, é um thriller financeiro que lembra bastante WALL STREET, de Oliver Stone. Mas a impressão é de uma adaptação muito mão-pesada do livro de Stephane Osmont, escritor especialista em romances sobre a crise do capitalismo europeu. “Le Capital” foi escrito em 2004, bem antes da débacle recente. Trata de um executivo que herda a presidência de um grande banco francês recém-comprado por americanos e tenta escapar ao destino de títere temporário. O tema é árido e, talvez por isso, o filme opte por diálogos muito explícitos e enfrentamentos nada sutis. Somos frequentemente confrontados com sermões sobre a desumanidade do sistema financeiro e as perdas e ganhos da ambição desmedida.  Mais óbvia ainda é a relação estabelecida entre poder e libido. A história começa com um problema de câncer nos testículos e avança através de referências constantes aos órgãos genitais masculinos e à rapacidade sexual do protagonista. Costa-Gavras nunca foi menos másculo, mas já foi bem mais efetivo. 

Michael Douglas e Matt Damon podiam bordar MD no enxoval. Em BEHIND THE CANDELABRA eles percorrem toda as fases de um drama conjugal, da sedução à separação. Douglas é Liberace, o pianista brega que encantou multidões na TV, no cinema e nos cassinos de Las Vegas e foi o artista mais bem pago do mundo nos anos 50-70. Damon é Scott Thorson, o garotão misto de amante e filho adotivo. As extravagâncias do estilo de vida e o jeitão bofe do casal fazem tudo ser visto como comédia, hilariante em vários momentos. Pena que o filme se estenda um pouco e apresente umas barriguinhas parecidas com as do casal. Mas o gosto com que Steven Soderbergh e os atores se entregam a essa reconstituição vale cada minuto. Não há sequer uma imagem do Liberace real no filme. Douglas o personifica em capas de revista e de livro, e até mesmo em cenas de arquivo. Mas basta comparar o filme com os materiais disponíveis no Youtube (sobretudo este aqui) para ver o talento da caracterização. A alguns CANDELABRA pode parecer desnecessário e vazio, mas eu me diverti um bocado. Não sei se tem distribuição prevista no Brasil.

Contei duas sequências de “lutando na chuva”, 55 casacos de pele diferentes e uns 38 nomes de estilos de kung fu em THE GRANDMASTER, o último Wong Kar-Wai. Talvez de tanto contar, me perdi na história do fim de um clã e do surgimento de um novo mestre, Ip Man, o futuro treinador de Bruce Lee – que aliás nem é citado no filme. Kar-Wai combina à perfeição a técnica de filmagem com a técnica da luta, mostrando que naquela coreografia as pausas bruscas importam mais que os movimentos. O romance entre Ip e a herdeira dos Gong começa em pleno ar, numa das cenas de luta mais mirabolantes do filme. Mas depois a coisa se dilui como sangue na água. No fundo, é mais um exercício de estilo do que qualquer outra coisa. A impressão de vazio se propaga entre efeitos de luz e enquadramentos belíssimos. Podia ser um Poderoso Chefão de Hong Kong, mas ficou na prateleira das perfumarias marciais. 

Vi oito sessões de curtas do Anima Mundi como membro do júri profissional. Enquanto o público dá uma nota geral para cada filme, os jurados profissionais temos que pontuar cada curta em cinco categorias: animação, roteiro, concepção sonora e direção de arte. O úncio filme que mereceu minha nota máxima em todos os quesitos foi SUBCONSCIOUS PASSWORD, de Chris Landreth. Ganhador de um Oscar com o animadoc RYAN, Landreth é um especialista em representar processos mentais através da animação. Nesse novo filme, ele próprio encontra um amigo (chato) cujo nome não se recorda. O filme “entra” no seu processo mnemônico como se fosse um programa de TV, com participações que vão de William S. Burroughs e Yoko Ono até a mãe dele e Nossa Senhora. A tudo seu subconsciente recorre para lembrar o nome do cara enquanto é tempo de não pagar um mico. A exuberância de técnicas, referências, humor e inteligência é algo de humilhante para a média dos curtas de animação. Veja o trailer.  

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