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Mais que um filme sobre televisão ou um filme de televisão, JOGO DO DINHEIRO é um filme-televisão. Assim como o apresentador Lee Gates (George Clooney) faz seu programa de aconselhamento financeiro como um show de variedades, Jodie Foster fez seu filme como um circo em que o espetáculo não pode parar. Quando um pequeno investidor frustrado (Jack O’Connell) invade o estúdio e faz Lee refém, obrigando a transmissão a permanecer no ar, tudo passa a servir a essa necessidade imperiosa da televisão: entretenimento contínuo, sem pausa nem silêncios. Lee é um palhaço, o invasor é um estressado, a diretora do programa (Julia Roberts) está à beira de um ataque de nervos, a movimentação da polícia é frenética, a reação dos telespectadores é enfática, as piadinhas comparecem com a graça de uma entrega de pizza. Tudo responde ao ritmo da televisão.

Enquanto o alvoroço vai rapidamente se transformando em tédio, o filme vai deixando seus recados sobre o sistema. A televisão precisa de uma boa sacudidela para enfim fazer jornalismo investigativo. O mercado financeiro esconde falcatruas por trás de algoritmos para ludibriar investidores. Um bom diretor e uma boa equipe de TV são aqueles capazes de tocar o programa mesmo sob a mira de um revólver e um detonador de bombas. Os indignados são, no fundo, pobres coitados em situação de desespero e com as horas contadas. E o vilão pode se redimir pela solidariedade com os pequenos e por um bom soco na cara do vilão maior. Ou seja, estamos em algum lugar entre uma moral de televisão e a sua autocrítica.



O filme islandês DESAJUSTADOS tem os ingredientes certos para quem gosta de emoções fáceis. Os personagens ajudam, a começar pelo protagonista Fúsi, um gigante obeso e infantilizado, excessivamente ingênuo, retraído e inerte na vida. Todos exigem que ele tome atitudes proativas de que não é capaz. Em torno dele as pessoas ou são completamente cruéis, como a mãe egocêntrica e os colegas de trabalho que o atormentam com bullying; ou perfeitamente bondosos, como o seu único amigo de fé e a menina vizinha que se identifica com ele. Esses dois polos vão se combinar no frágil romance com uma moça bipolar.

Charles Chaplin lidou com ingredientes parecidos em “Luzes da Cidade”, mas tinha a seu favor a singeleza da época e o talento para combinar drama e comédia. Aqui não é bem o caso. A não ser por algumas poucas cenas de humor agridoce, o diretor Dagur Kári mantém o filme numa temperatura de banho-maria, sem muita inspiração para transcender um naturalismo trivial. Os frequentes closes de um olho de Fúsi, magnificados na tela como o de um elefante, é das poucas intervenções que sugerem um autor por trás do roteiro. De resto, só vi ali a melancólica história de um coitadinho.