Semana dos Realizadores, vol. 2

BRANCO SAI. PRETO FICA podia ser um documentário bem-pensante sobre duas vítimas de violência policial contra um baile black na Ceilândia em 1986. Marquim virou cadeirante e hoje é cantor de rap. Shokito (no filme, Sartana) perdeu uma perna e faz assistência técnica de próteses mecânicas. Podia ser um doc, mas aí não seria um filme de Adirley Queirós e do coletivo que ele integra na periferia de Brasília. Juntos, eles imaginaram um “Blade Runner” de sucata, em que um terceiro personagem viaja do ano 2073 para recolher provas de crimes do Estado contra cidadãos negros e marginalizados. Temos então passado, presente e futuro articulados numa lógica totalmente paródica, que evoca também o “Alphaville” de Godard. Mas se o arcabouço sugerido pelas locações, enquadramentos e efeitos sonoros é de ficção científica, o que vemos de fato é um originalíssimo filme de ativismo, tal como outros de Adirley. O que está na mira é o muro invisível que separa Brasília de seus arredores, um muro que, na ficção, requer passaporte para ser transposto. Uma distância entre a ficção do poder e a realidade do país, que Marquim e seus companheiros pretendem anular construindo uma bomba sonora para ser atirada sobre o plano-piloto. Uma bomba que contenha os sons agressivos e bregas da periferia, que é pra destruir uma certa ideia de bom-gosto. Partes dessa proposta de escancaramento político do popular são a estética pós-geringonça dos cenários e mesmo as imperfeições e “barrigas” do filme. Adirley Queirós faz um cinema singular no Brasil, juntando invenção de linguagem, efetividade política e principalmente autonomia de expressão. Ganhou o Festival de Brasília, onde deve ter chegado mesmo como uma bomba simbólica.

ela-volta-na-quintaELA VOLTA NA QUINTA é um convite de André Novais Oliveira a que conheçamos de perto sua família, mas sem que a casa esteja especialmente arrumada para receber visitas. Seu pai, sua mãe, ele próprio, seu irmão e as respectivas namoradas estão ali como costumam estar sempre, apenas com um pequeno deslizamento da vida real no rumo de um esboço de ficção. Os pais fingem que estão em crise conjugal, fazem as cenas para agradar ao filho que está perseguindo o sonho do cinema. A gente entra nas casas deles, fica por ali testemunhando um pouco daquelas vidas e sorvendo a história em goles curtos e compassados. Nada além disso, mas como é bom… A opção pelo anti-espetáculo parece presidir cada decisão de André em seus filmes. Não há qualquer glamour na ambientação do subúrbio de Belo Horizonte, nem efeitos de dramaturgia na montagem. Cada cena é geralmente definida por um plano único e fixo, mesmo que a conversa normalmente sugerisse o corte entre um e outro interlocutor. Aliás, como já tínhamos visto no curta Pouco Mais de um Mês, ele adora filmar conversas na cama, esse espaço íntimo em que se vai do banal ao crucial. A maneira insinuante como o longa conquista a simpatia e o interesse do espectador tem certamente a ver com essa simplicidade absoluta, essa singeleza de enunciação que se beneficia de uma família especialmente dotada para a mise-en-scène transparente e a abstração da presença da câmera. As únicas quebras do modelo anti-espetacular são as inserções de músicas que comentam ou engajam os personagens em suas histórias. Por falar nisso, e pensando também em “O que se Move” e “Sinfonia da Necrópole”, já é tempo de se examinar as configurações de um novíssimo cinema musical brasileiro.

Paula Gaitán distribuiu tampões de ouvido aos espectadores do seu novo longa, NOITE, na Semana dos Realizadores. Sabia que fez um filme “extremo”, e não apenas no aspecto sonoro. Depois do relativamente narrativo “Exilados do Vulcão”, quis partir para uma empreitada mais experimental. Assumiu ela mesma a câmera (e depois a edição) para filmar instantâneos da noite carioca, principalmente em dois points festeiros de Botafogo. Hits de pauleira eletrônica e de música noise se alternam com blues, canções latinas e performances de Arrigo Barnabé, Arto Lindsay e Ava Rocha, entre outros, num filme que é puro exercício de mixagem audiovisual. As músicas se sucedem sem pausa e dialogam com a busca incessante de Paula por texturas sobrepostas, pixelizações, estroboscopia, refrações de luz e de cor. Mas há sobretudo a procura de um estado de alteração dos corpos dançantes, algo que vai da anomia ao êxtase. Daí que o filme se avizinhe um pouco da estética de Arthur Omar, seja pela fisicalidade exuberante, seja pela conjugação erótica e hipnótica de imagens e músicas possantes. Em meio a músicos e consumidores, a atriz Clara Choveaux evolui como uma top model transcendental, presente e ausente ao mesmo tempo, quase etérea entre purpurinas e reflexos. De certa forma, é a projeção de Paula dentro da cena, o desejo de confundir-se com a matéria do seu filme. NOITE é trabalho que pede não exatamente uma sala de cinema, mas um ambiente expandido que o liberte de expectativas mais convencionais. Se bem que o foco direcionado do cinema deixe bem evidentes sua potência e beleza.

O que mais aprecio no cinema de Gabriel Mascaro é o areal movediço que ele põe debaixo dos pés. O que estava sendo documentado em “Um Lugar ao Sol”? Quem de fato estava documentando “Domésticas”? Qual o limite entre ficção e realidade em “Avenida Brasília Formosa”? Quais os coeficientes de realidade e virtualidade em “As Aventuras de Paulo Bruscky”? Em VENTOS DE AGOSTO, seu primeiro longa de assumida ficção, ele lança outro dispositivo de instabilidade: como esses três blocos narrativos tão distintos podem conviver num mesmo filme sem se constituírem como episódios? No primeiro, o namoro entre um pescador e uma tatuadora num canto remoto do Nordeste. No segundo, a chegada tão súbita quanto o desaparecimento de um pesquisador de ventos com seus sensores e microfones. No terceiro, os cuidados do pescador com um cadáver que encontrou na praia. Há referências muito claras, como as interações entre o arcaico e o moderno, os signos de morte (ou de sua iminência) antecipando uma catástrofe maior representada pelo avanço do mar sobre a terra, e ainda o paralelo entre tecnologia e cinema, com o próprio Mascaro interpretando o estudioso dos ventos. Mas há também outras sutis, que associam o sexo à natureza (como é belo o plano do coqueiro ao som dos gemidos dos amantes) e o vento ao efeito evanescedor do tempo. Física e metafísica. Simplicidade e ambição. Cenas e músicas interrompidas para que ecoem e se completem na imaginação do espectador. Continuidade frouxa. Um filme que não caminha firme para que a gente o perceba como um vento que refresca e desorganiza.

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