O melhor filme do mundo

Oito e Meio (em cartaz no Espaço Itaú Rio diariamente às 19h30) pode não ser o melhor filme de Fellini, mas para mim é o melhor da história do cinema. Esse tipo de escolha é feito sempre por uma mistura de motivos objetivos e subjetivos. Eu vi pela primeira vez com cerca de 20 anos de idade. Foi uma descoberta avassaladora do potencial do cinema moderno. Então, pensei, um filme podia ser de vanguarda e ao mesmo tempo assimilável como narrativa. Podia jogar tão livremente com o passado e o presente, a vida e o cinema, os fatos e a imaginação. divide com O Desprezo de Godard o título de grande obra reflexiva sobre o cinema nos anos 1960. Fellini dramatizou seu processo criativo, seus impasses, sua autocrítica e o olhar externo sobre si mesmo.

Guido Anselmi é um alterego de Fellini, como Mastroianni viveu em tantos outros filmes. A sobreposição é absoluta entre tudo o que Guido faz dentro do filme e o que Fellini faz com o filme. Guido está na pré-produção de um longa de ficção científica. Não sabe como foi parar ali, já que a intenção inicial era fazer um filme simples sobre as coisas que devemos ir enterrando ao longo da vida. O bloqueio criativo o paralisa, assim como o excesso de ofertas e demandas que o assediam: as atrizes, a amante, a esposa insatisfeita, o produtor, os técnicos, o crítico a quem ele pediu uma colaboração no roteiro. Guido, o homem que não sabe amar nem fazer filmes de amor, é o macho atarantado de quem todos esperam uma ordem, um carinho, uma atenção. Mas ele está à deriva, perdido entre lembranças da infância povoada de mulheres, devaneios com os pais já falecidos e uma miragem de mulher (Claudia Cardinale) que lhe acena com a salvação.

O realismo passa ao largo. A começar pela sequência de abertura no engarrafamento, Guido trafega sobretudo por espaços de sonho, ou então de espetáculo e vida social – estúdios, cinemas, hotéis, ruínas e as termas onde ele passa por um tratamento que é puramente metafórico. A Itália, com suas peruas, pin-ups e prelados, transborda por todos os cantos da tela, é claro. Mas trata toda a Europa com uma certa galhofa através dos sotaques estrangeiros de algumas atrizes e do crítico. Sem falar em Carla (Sandra Milo), que solta onomatopeias de histórias em quadrinhos. Só percebi isso agora, na quarta ou quinta vez que vi o filme. Mas sei que continuaria vendo por mais duzentas vezes sem que se esgotassem as suas novidades.

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