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André Luiz Oliveira trocou a Bahia por Brasília e juntou o cinema com a música. Renato Matos fez o mesmo trajeto e reuniu a música com as artes visuais. O documentário ZIRIG DUM BRASÍLIA é resultado desse encontro de dois talentos baiano-brasilienses. O filme de André Luiz sobre Renato é a cara dos dois – criativo, leve, divertido e sobejamente musical. Estreou esta semana no DF, entra logo depois em Salvador e sabe-se lá quando no resto do país. Para quem não o conhece, Renato Matos é um compositor da vanguarda brasiliense, cheio de uma bossa onde se misturam o reggae caribenho, as matrizes afro, o rock e o jazz. Sua voz e música soam em algum ponto entre Gil e Tom Zé, mas ele nunca logrou o reconhecimento nacional ou os louros do sucesso daqueles dois. Pintou Brasília com rara originalidade, tanto na música quanto nos quadros. Inventa instrumentos e tira música de tudo o que encontra pela frente. Foi aluno de Walter Smetak e gerou dois filhos músicos, ou seja, toda uma dinastia. André encharca o filme com sua música e o faz contracenar com Brasília e Salvador. Combina a linguagem do clipe musical com o documentário e flashes de animação. A edição, assinada pelo próprio diretor, tira partido do suingue e da disponibilidade de Renato para a performance diante da câmera, um pouco como Jorge Alfredo fez com Samba Riachão. É mais um filme revelador do imenso patrimônio artístico brasileiro que, por mil razões (íntimas e de mercado), não rompe a bolha da modéstia.


Com poucas exceções, documentários sobre moda já criaram um certo padrão baseado em três elementos: o suspense da criação de uma nova coleção (ou edição de uma revista), o perfil idiossincrático do estilista (ou editor) e flashes da história da maison e de seu criador. DIOR E EU, que entra em cartaz nesta sexta, não foge à regra. Há, porém, duas distinções importantes. Raf Simons, o convidado para criar a nova coleção em tempo recorde, vem do prêt-à-porter minimalista e quer impor seu toque de modernidade à alta costura. Ao procurar os desdobramentos dessa situação, o filme de Frédéric Tcheng acaba abrindo um espaço maior para o segundo e terceiro escalões da Maison Dior, estamentos usualmente obscurecidos em docs do gênero. Afora isso, não há grandes novidades desfilando diante das câmeras. A menos que o espectador não resista a pitis de costureiro, à mescla de pedreira e glamour dos ateliês e aos atrativos de uma montagem super habilidosa. No capítulo das liberdades poéticas, gostei bastante da forma como Tcheng visualizou as histórias sobre o fantasma de Christian Dior passeando pelos ateliês vazios durante a noite.


Entendo bem o prêmio de mise-en-scène documental conferido pelo júri do I Pirenópolis.doc a CARREGADOR 1118. De fato, o filme usa o personagem Tonho (Antonio da Silva) principalmente como eixo humano para um ensaio audiovisual sobre o Ceagesp, o grande entreposto de gêneros hortículas da cidade de São Paulo. Seja com a câmera inabalavelmente fixa diante do vai-vem dos carregadores ou de suas conversas, seja seguindo a movimentação de Tonho e seu carrinho superlotado, o que mais parece interessar aos diretores são as composições fotográficas, os efeitos de teleobjetiva e os padrões de movimento do lugar. De alguma forma, e descontando um certo formalismo, o filme me fez lembrar o pioneiro do Free Cinema “Every Day Except Christmas” (1958), em que Lindsay Anderson explorou o ambiente do mercado de Covent Garden e as primeiras possibilidades do som direto sincronizado. Tonho e seus companheiros são nordestinos, o que dá um acento especial às poucas cenas dialogadas. Ele está extremamente exausto a cada fim de jornada, sugerindo uma criatura à beira do colapso. Mas que não se espere um estudo de personagem. Nem tampouco depoimentos ou entrevistas. Estamos na seara da observação ligeiramente dramatizada, um pouco como Eryk Rocha construiu o seu “Transeunte”. O personagem, porém, fica à distância, como se observado através de uma luneta. Os diretores Eduardo Consonni e Rodrigo T. Marques dividem as tarefas de fotografia e som, e ainda a autoria de diversas canções românticas. Com versos como “Carregue no fundo do peito a dor do amor”, elas são entoadas por ninguém menos que Wanderley Cardoso.


“Já vi mais de 10 vezes e acho que é o filme de que eu mais gosto.  Se eu tivesse que dizer qual é o melhor documentário do mundo, eu ia dizer que é esse.” – Adirley Queirós a respeito de Serras da Desordem, de Andrea Tonacci.

Conheça os filmes-faróis de Adirley Queirós no blog Faróis do Cinema.