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Texto escrito para o encarte do recém-lançado DVD da Lume Filmes contendo o longa Sopro e 10 curtas do documentarista Marcos Pimentel. 

Este DVD tem a rara qualidade de conter um longa-metragem e o essencial da trajetória que levou seu diretor até ele. Em sua mineiríssima discrição, Marcos Pimentel vem construindo uma carreira coerente e brilhante no documentário brasileiro. Coerente porque explora temas e estilos em profundidade. Brilhante porque escava o cotidiano em busca da beleza e nos revela o subsolo poético da realidade.

Sopro é seu primeiro longa, do qual uma costela havia sido antecipada no curta A Poeira e o Vento. Encontramos aí o retrato de uma minúscula e isolada comunidade do interior de Minas, onde o tempo decorrido entre nascimento e morte parece ser um lento e manso escoar de rotina singela. Gente e animais, como é frequente mesmo nos filmes urbanos de Marcos, partilham o mesmo sentido de estar vivo à mercê ora dos hábitos, ora do acaso. Sopro assinala a maturidade do método escolhido pelo cineasta: a observação meticulosa e paciente de lugares e pessoas para capturar momentos-síntese e instantes extraordinários, sempre com o enquadramento ideal e o tratamento sonoro mais sugestivo. Um olho que ouve o andar do mundo.

Nos rurais Sopro, A Poeira e o Vento e o inexcedivelmente belo Sanã, Marcos exercita um tipo de documentário à moda de Robert Flaherty, que dramatiza o contato do homem com a natureza e evita intervenções violentas da edição (de imagens e sons) sobre o ritmo original das coisas. Mas se recuamos a seus curtas anteriores, vamos testemunhar sua profunda admiração pelo modelo de Dziga Vertov.

taba-2A trilogia metropolitana Urbe, Pólis e Taba (foto à direita) revolve a sensorialidade das cidades em busca de padrões de movimento, fluxos, aceleração e repouso, acumulação, serialização, mecanização – em uma palavra, mudança. Surge daí uma visão surpreendente, crítica, mas também lírica e transcendente da vida urbana. Consumo e degradação, trabalho e espiritualidade, cultura e violência se espelham no simples discurso das imagens, de onde inesperadamente pode surgir o maravilhoso. O contexto industrial, nesses casos, justifica uma utilização mais incisiva da montagem e do desenho sonoro, este a cargo da dupla O Grivo.

A coesão desses trabalhos e a adequação de seus meios ao universo documentado devem muito à fidelidade de Marcos a sua equipe básica: o diretor de fotografia Matheus Rocha, o editor Ivan Morales Jr., o técnico de som direto Pedro Aspahan, O Grivo e a produtora Luana Melgaço. A par de seus trabalhos individuais, é de supor que eles formem aqui uma espécie de família em plena sintonia com esse projeto de expressão documental que tem em A Arquitetura do Corpo um de seus exemplos mais refinados. Neste curta, a dança é vista antes de ser espetáculo, ou seja, enquanto é pura tensão, dor e obstinação na pele e nos músculos dos bailarinos durante os ensaios.

Esta coletânea inclui ainda dois trabalhos de início de carreira, quando Marcos se ocupava do cinema como apreensão do tempo e máquina de memória. Os materiais de arquivo são estrelas de Biografia do Tempo e Cemitério de Memória. O tempo também se destacaria em filmes posteriores, seja no passado encapsulado no presente e na transitoriedade do circo mambembe de O Maior Espetáculo da Terra, seja na delicada conexão que Século estabelece entre a ruína das coisas e o fim de um amor.

O itinerário de Marcos Pimentel evidencia uma progressão das palavras ao silêncio. De uma certa retórica sobre o mundo a algo que eu chamaria de contemplação seletiva. Do expositivo ao imersivo. Do “sobre” ao “em”. Assim se mede a integridade e a unidade de uma obra em constante evolução, o contrário dos cães errantes que atravessam os filmes de Marcos como mascotes do inesperado.