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Fui rever Que Horas Ela Volta? com a atenção mais voltada para a construção da dramaturgia. O filme de Anna Muylaert é finamente perceptivo das relações entre os personagens, e é disso que tira sua força política, em lugar de qualquer análise sociológica. Ao pautar-se pela humanidade dos personagens e seus vínculos entre si, com a casa e as coisas, Anna alcança ressonâncias que nenhum discurso ou tese alcançaria.

Alguns pontos que observei:

(Aviso a quem absurdamente ainda não viu o filme: este texto contém spoilers)

O olhar da cozinha: são poucos os momentos em que Val ou Jéssica não estão envolvidas diretamente na ação. Não se trata apenas de mudar o foco principal dos patrões (como em Casa Grande) para os empregados. O que se constrói aqui é uma perspectiva que vem da cozinha e das dependências de serviço. Uma sequência é particularmente demonstrativa desse ponto de vista. “Seu” Carlos convida Jéssica a almoçar com ele na sala de jantar. Val os serve, mas a câmera insiste numa tomada de dentro da cozinha, acompanhando as várias saídas e retornos de uma constrangida Val e as reações silenciosas da faxineira escandalizada. O recurso, além do efeito cômico, situa o espectador na mentalidade das empregadas.

O jogo de café: emblema das transformações em jogo durante o filme, o conjunto de xícaras e garrafa térmica é presenteado à patroa como algo “moderno”, que supostamente a agradaria. Mais tarde, a rejeição de Bárbara planta a primeira semente de insatisfação em Val. Por fim, o “roubo” do utensílio vai marcar uma modesta revanche de Val, quando na verdade o conjunto estava apenas reassumindo seu lugar na admiração dela. Mas a alternância “moderna” de cores entre pires e xícaras não mais será respeitada em sua tardia estreia com mãe e filha. No café, elas combinam as cores da maneira tradicional. É como um adeus ao mundo do estilo (associado a Bárbara) e à preocupação em agradar a qualquer preço.

A piscina: esse é um ícone de classe alta comum também a O Som ao Redor (há mesmo um plano de citação clara) e Casa Grande. No filme de Anna, a piscina marca o tempo de permanência de Val na casa dos patrões e desempenha papel importante em dois momentos. O banho de Jéssica com Fabinho e seu amigo representa o cúmulo da transgressão das normas, tanto para Bárbara como para Val. Mais adiante, é Val quem entra na piscina semivazia para celebrar o sucesso de Jéssica no vestibular e mostrar-se cúmplice dela. Não é um “ato de rebeldia”, como já escreveram por aí, mas uma sublimação ingênua, uma catarse mínima. Val não faz nenhuma revolução a não ser a revolução íntima mobilizada por seu instinto maternal. Quem revoluciona é Jéssica, na inocência insurgente de quem não reconhece lugares de classe.

A debilidade masculina: Os pruridos de machismo que têm aparecido aqui e ali talvez não provenham somente do fato de Anna Muylaert ter entrado para o clube do Bolinha dos diretores de grande sucesso, como ela mesma suspeita. O filme faz um retrato nada agradável dos homens em cena. Fabinho é um adolescente bastante amorfo, que se sente intimidado pela desinibição de Jéssica e, por fim, não passa no vestibular. O pai é um personagem que parece saído da pena do quadrinista e dramaturgo Lourenço Mutarelli (O Cheiro do Ralo), que vive o personagem na tela. Embora seja o provedor financeiro da família por obra de uma herança, é um homem passivo, diletante, um completo sem-noção, subjugado pela mulher e patético em sua fragilidade. Talvez isso incomode bem mais do que os holofotes acesos sobre Anna no momento.