Anna Muylaert e o triunfo do conjunto

Anna e seu elenco 

Premiado em festivais e exaltado pela grande maioria da crítica, possível forte candidato ao Oscar de filme estrangeiro, Que Horas Ela Volta? corre um único risco: o de que a performance arrasadora de Regina Casé, que já apaixonou meia Europa, obscureça as demais qualidades do filme de Anna Muylaert. Pois o que se vê ali é o encontro de uma atriz fenomenal com um material dramatúrgico de primeira e que se amoldou como um corpete a suas características.

Em seguida a O Som ao Redor e Casagrande, este é o filme mais habilitado a representar a dinâmica atual das classes na urbe brasileira. Sem querer reduzir as personagens a estereótipos, eu diria que Val encarna a herança colonial de afetuosidade, servilismo e renúncia pessoal na esfera das empregadas domésticas. Jéssica, a filha há muito distante, é a geração que cresceu alheia àquela herança e se situa numa fronteira tênue entre independência e oportunismo. A família dos patrões reúne as derivas e dissimulações de uma classe média alta que vê em risco seu projeto de controle branco sobre os espaços e autoridades da casa.

É na interação entre esses campos de poder e de sentido, assim como nos desdobramentos da visita da filha, que Anna Muylaert exerce seu domínio admirável de escrita e mise-en-scène, favorecida por um conjunto de atores em perfeita sintonia. Mais que um triunfo de Regina, o filme é um primor de harmonia entre elementos.

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