Um cadáver no exílio

O roubo e sumiço do cadáver embalsamado de Evita Perón, três anos depois de sua morte, é uma das histórias mais extravagantes e mórbidas a envolver o peronismo. Militares que depuseram Juan Perón sequestraram o corpo para apagar o mito, mas só fizeram reforçá-lo. “Onde está o corpo de Evita?” virou uma pergunta obsessiva dos argentinos por 20 anos, até que fosse trasladado de volta à Argentina depois de passar por um cemitério da Itália e pela casa de exílio de Perón em Madri.

EVA NÃO DORME aborda esse assunto de maneira concisa, nos moldes de uma peça teatral dividida em três atos. No primeiro, testemunhamos os cuidados com que o embalsamador prepara o corpo de Evita para o velório e suas reflexões fisiológicas sobre a expressão dela. No segundo, o tumultuado transporte do ataúde no dia do roubo. No terceiro, passado já em 1970, vemos o general e ex-presidente Aramburu sequestrado pelos montoneros e instado a revelar o paradeiro do cadáver. Uma moldura abre e fecha o filme, trazendo Gael García Bernal num pequeno papel como o futuro almirante Emilio Massera, personificação do ressentimento político e do ódio de gênero que os militares nutriam pela primeira-dama peronista.

O filme de Pablo Agüero é um projeto bastante incomum, seja pela perspectiva oblíqua com que trata a história argentina durante 25 anos (com inserções de muito material de arquivo), seja pelos ingredientes de que lança mão. Os cenários claustrofóbicos, as cores dessaturadas e as longas tomadas fixas criam uma atmosfera soturna e às vezes exasperante. O elenco internacional contribui para a estranheza geral, com a curtíssima participação do mexicano Gael, o espanhol Imanol Arias como o embalsamador e o francês Denis Lavant como o exótico (Lavant é sempre exótico) assessor militar encarregado de transportar o corpo surrupiado em 1955.

Por trás dessa saga de um cadáver está a tragédia argentina que levaria o país à ditadura sanguinária de Videla e Massera a partir de 1976. Tudo começou com o golpe contra um governo popular e a falácia da modernização e da aproximação com os EUA. Evita, de alguma maneira, ficaria para sempre insepulta.

P.S. Deixo aqui a dica do Sérgio Muniz: O documentário Evita, la Tumba sin Paz, de Tristán Bauer, pode ser visto no Youtube e, segundo Sérgio, “trata exemplarmente desse tema”.

Um comentário sobre “Um cadáver no exílio

  1. Gostei da forma original de abordar o tema sem se perder em “excessos” de criatividade. Se os menos informados podem não captar tudo que se refere aos fatos históricos, espero que sirva de motivação para satisfazer a curiosidade pesquisando a respeito. A crítica define muito bem o que é o ótimo filme.

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