De iogues e caminhoneiros

Sobre os documentários ON YOGA – ARQUITETURA DA PAZ e PARA ALÉM DA CURVA DA ESTRADA

Num dado momento de ON YOGA – ARQUITETURA DA PAZ, o fotógrafo Michael O’Neill compara a fotografia com a ioga. Segundo ele, em ambas se trata de focar e concentrar. É por essas linhas paralelas que Heitor Dhalia parece ter construído seu documentário, que procura harmonizar o trabalho de 10 anos de Michael clicando praticantes de ioga e os ensinamentos dessa prática.

Se pode ter interesse de confirmação para os convertidos à filosofia oriental, o filme dificilmente vai mobilizar os demais. A começar pelo tom marcadamente doutrinário, coisa que um recente documentário sobre o guru Yogananda, por exemplo, soube evitar. Temos então uma sucessão repetitiva de generalidades sobre a ioga – a recomendação de reduzir os desejos, a separação do “eu” do corpo físico, a aceitação da morte, etc. Depois pela estética adocicada na linha “New Age”, com o abuso do slow motion, como se Dhalia pretendesse se situar em algum ponto intermediário entre o seu próprio ofício (o cinema) e o de seu personagem condutor (a fotografia).

Casado com a brasileira Bia Setti, uma das produtoras do filme, o vaidoso Michael O’Neill descobriu a ioga depois de sofrer uma lesão num braço. Suas fotos de grandes mestres iogues em posições “impossíveis” têm uma qualidade escultural inegável e uma bela escolha de cenários naturais. Dhalia o acompanha em algumas sessões fotográficas e registra um punhado de imagens pitorescas da Índia. Ouve professores de ioga e praticantes também em Nova York.

Não consegue, porém, estabelecer um elo mais efetivo entre Michael e seus modelos. Muito é mencionado e pouco é registrado pelas câmeras. Resta uma série de imagens bonitas e pensamentos avançados que, tratados com solenidade banal, provocam mais reiteração que iluminação.



Com patrocínio da Mercedes Benz, o documentário PARA ALÉM DA CURVA DA ESTRADA é um retrato afetivo da vida dos caminhoneiros. Em particular, do simpático Jorge Lisboa, que conduz o filme através de muitas centenas de quilômetros pelo Sudeste, Centro-Oeste e Nordeste do Brasil. Jorge narra, comenta, entrevista colegas, revisita uma família que o resgatou de um acidente no passado. Não tem o caráter provocador de um Tião Brasil Grande em Iracema, uma Transa Amazônica, nem é objeto de especulação existencial de longo prazo, como o protagonista de Homem Comum, de Carlos Nader. Por coincidência, é xará de Jorge, um Brasileiro, que Paulo Thiago adaptou do romance de estrada de Oswaldo França Júnior.

O road-doc de Guilherme Azevedo se atém à coleta de histórias e considerações sobre a vida a bordo dos caminhões. A crise na demanda de fretes, a insegurança e a má conservação das estradas, os pedágios informais em territórios indígenas são circunstâncias que, em maior ou menor medida, afetam o trabalho dos caminhoneiros. Acima de qualquer dificuldade, porém, se impõe o gosto pela estrada, definido por vários como “um vício”. Em seu longo caminho, Jorge topa também com caminhoneiras e com algumas famílias que fizeram da boleia a sua casa. Sem contar com os coadjuvantes habituais, como agenciadores de frete, loneiros, servidores de restaurantes, etc.

Apesar das condições às vezes precárias, a visão que prevalece é a de gente boa apaixonada pelo que faz. Temas como a vida sexual e a potencialidade política dos caminhoneiros são abordados muito rapidamente, dentro de um percurso documental relativamente curioso, mas bastante episódico e superficial.

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