O arroto do leão

Há pouco mais de cinco anos, Gabriela Amaral Almeida escreveu para Cibele Forjaz a peça A Travessia da Calunga Grande, que se passava dentro de um navio negreiro movido a sangue. Em O ANIMAL CORDIAL, primeiro longa de Gabriela, o espaço de confinamento é um restaurante de São Paulo, e o sangue continua a ser o combustível da alegoria.

Vi o filme no Janela Internacional de Cinema do Recife, onde passou fora de competição. A plateia do Cine São Luiz – como todas até agora diante desse filme – ria, fechava os olhos e se contorcia nas poltronas, de acordo com o que Gabriela enfiava em nossos olhos a cada momento. As facas têm um papel protagonista desde as primeiras cenas, quando o restaurante, prestes a fechar, atende a um casal de última hora. Ainda é cedo para tudo o que vai acontecer naquela longa jornada noite adentro, mas a tensão já se acumulava nas relações entre o proprietário Inácio (Murilo Benício) e seus empregados, na estranha submissão da gerente Sara (Luciana Paes) e na espinhosa sessão de escolha do vinho.

Não demora para que o vinho dê lugar ao sangue a partir do momento em que o restaurante é invadido por dois assaltantes e Inácio se desdobra na defesa do seu patrimônio. Uma sucessão de blefes, suspeitas, agressões, manietamentos e desforras instala a barbárie entre papéis sociais e entre sexos. A psicopatia grassa entre alguns personagens, com destaque para o macho Inácio e sua ligação de amor e desprezo com Sara.

Embora o círculo infernal se instale entre todos os presentes, do salão à cozinha, são Inácio e Sara que levam a proposta de Gabriela até os seus paroxismos. Neles se concentram a atração e a repulsa de classes e de gêneros. Neles a violência, o sangue e o sexo perdem o valor de realidade e assumem a feição de um ritual dos corpos, algo que flutua entre a cerimônia indígena e o delírio psicótico. Através deles somos levados a aceitar – mesmo sem compreender de imediato – algumas hipérboles que a diretora incorpora corajosamente.

Se repararmos bem, veremos que tudo é ritualizado desde o início. Uma intencionalidade quase caricata mobiliza os personagens já a partir de sua apresentação. Numa perspectiva naturalista, eles poderiam soar insuportáveis, mas o código que Gabriela institui de pronto nos sintoniza com o gótico, o grand-guignol e as fronteiras do non sense. Se os clientes do restaurante não o abandonam logo ao primeiro derramamento de sangue é porque um ímã buñueliano os mantém presos ao cenário, como os personagens de O Anjo Exterminador.

Do navio negreiro ao restaurante, Gabriela Amaral Almeida põe em cena alegorias de um Brasil que se dilacera e se autodevora no altar do consumo, da exploração e de um machismo transformado em política. Ela escreveu O ANIMAL CORDIAL em tempos de impeachment de Dilma Rousseff. A indignação está na base dessa criação e chega a nos tocar como a ponta de uma faca. Para mim não é exatamente um filme de terror, mas sim um jorro de fúria e inteligência, um arroto de leão após deglutir sua presa.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s