Cidade trágica

Num ambiente ferido pela violência pública e doméstica como é o Rio de Janeiro, não é fácil definir a fronteira entre as redes de proteção das pessoas e as engrenagens que só fazem aumentar a violência. PRAÇA PARIS é mais um filme de Lúcia Murat a examinar a dinâmica trágica entre os afetos e a letalidade na antiga Cidade Maravilhosa.

No centro de uma espiral de brutalidades está Glória, ascensorista com um currículo de padecimentos que vem da infância. Tudo o que se lhe oferece como ajuda tem um pé quebrado: o irmão traficante determinado a “protegê-la” de dentro da cadeia; o pastor com sua pregação tão incisiva quanto inócua; o amigo fiel que sofre um interdito para namorá-la; e Camila, terapeuta portuguesa que a toma como matéria de um vago estudo sobre “a violência no Brasil”, desenvolvido na UERJ. O filme, aliás, é dedicado a essa universidade, a primeira a adotar o sistema de cotas no país.

Durante boa parte do tempo, PRAÇA PARIS se assemelha a uma versão audiovisual da pesquisa de Camila. Sucedem-se os relatos de episódios violentos, que aos poucos vão fazendo de Camila uma apavorada refém do seu objeto de estudo. Glória, enquanto isso, parece tomada de uma resignação bovina diante de tamanhos infortúnios. É um tanto tardiamente que a trama enfim se anuncia, à medida que Glória revela camadas inesperadas de sua personalidade e o filme assume um quê de tragédia grega.

Uma variante psicanalítica se insinua através da fantasia paranoica da troca de lugares. Glória e Camila, de classes, raças e nacionalidades diferentes, se projetam no lugar uma da outra, ao passo que a portuguesinha alimenta uma relação de mimetismo com a avó, que morreu no Rio. Essa dinâmica vai ser decisiva para a evolução de Camila, mas não tanto para a de Glória.

A pegada psicanalítica não dissimula uma visão do morro como foco de violência. Nesse sentido, o filme pode ser criticável sociologicamente por reafirmar estereótipos. Lucia Murat, uma humanista politicamente  consciente, está longe de fazer favela exploitation, mas um observador desavisado pode bem fazer essa interpretação.

A coprodução com Portugal e Argentina suscita uma presença bastante artificial da personagem portuguesa, vivida por Joana de Verona. Quem sustenta PRAÇA PARIS de pé, mais que tudo, é Grace Passô como Glória. A riqueza de recursos expressivos e a justeza dos tons de voz da atriz dão total credibilidade a uma criatura que aprendeu duramente a enfrentar o abandono e cuidar de si mesma, à margem de parentes, pastores e psicanalistas. Ainda que ao custo de algumas tragédias.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s