Uma bela floresta narrativa

Segundo os diretores de O FANTASMA DA SICÍLIA (Sicilian Ghost Story), a máfia é a grande história de fantasmas da Sicília, origem dos medos, assombrações e fantasias da população local. Daí a originalíssima combinação que faz esse filme dos ingredientes de contos de fadas com a violência e o macabro das histórias de máfia. O argumento partiu de um acontecimento real dos anos 1990.

É num bosque que os adolescentes Giuseppe e Luna se encontram para um primeiro beijo e a entrega de uma carta de amor. Logo em seguida, o garoto desaparece misteriosamente. Uma nuvem de silêncio encobre o fato, segundo o código mafioso. Mas Luna, tomada por uma paixão obsessiva, não abdica de investigar o seu paradeiro, enfrentando a oposição de ambas as famílias. O que se segue, então, é uma floresta narrativa destinada a fazer o espectador se perder entre realidade e imaginação, o tangível e a alucinação, a brutalidade dos fatos e os devaneios das mentes apaixonadas.

É interessante como o filme absorve para esse estranho contexto os signos dos contos de fadas: a floresta, as passagens misteriosas, as aparições, os animais como emanações vivas da Natureza, a bruxa ou madrasta (na personagem da mãe suíça de Luna) e até referências possíveis a “João e Maria” e “Chapeuzinho Vermelho”. Os desdobramentos sinistros levam ao paroxismo tanto a crueldade como o delírio desse gênero de história.

Admito que não gostei muito de “Salvo”, o premiado filme anterior dos sicilianos Fabio Grassadonia e Antonio Piazza, que também tratava de afeto em meio às hostilidades da Cosa Nostra. Mas O FANTASMA DA SICÍLIA me pareceu resolver bem melhor o balanço de contundência e lirismo. O fotógrafo Luca Bigazzi faz um trabalho de câmera fenomenal, explorando os ângulos distorcidos e o suspense pela profundidade de foco. Não há momentos banais na forma sempre instigante com que os diretores conduzem e renovam nossas expectativas a cada instante, inclusive por meio de um desenho de som riquíssimo em sugestões – o que, aliás, era já uma qualidade de “Salvo” – e uma trilha musical magnetizante. Ao fim e ao cabo, uma belíssima, inquietante e trágica história de amour fou.

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