Homens em busca da luz

O FAROL

Faróis e ilhas desertas são cenários paradigmáticos para narrativas de isolamento, desterro, tédio, carência sexual, loucura, alucinações e fantasmagorias. O FAROL, coproduzido pelo brasileiro Rodrigo Teixeira, trabalha com todos esses elementos, aos quais se acrescenta o exercício do poder e da tirania. A convivência entre o veterano faroleiro Thomas Wake (Willem Dafoe) e seu novo auxiliar Thomas “Ephraim Winslow” Howard (Robert Pattinson) é um embate constante de vontades em meio à fúria da Natureza e um aparente esquecimento do mundo exterior.

Livremente inspirado num incidente real de 1801, o filme tem diálogos em inglês oitocentista rebuscado, que saíram de Herman Melville (Moby Dick), da romancista Sarah Orne Jewett e de antigos diários de faroleiros, entre outras fontes. À medida que a situação se desenvolve, mistérios e metáforas (ou seria metáfarol?) vão se acumulando em dois campos principais. Um deles é o erotismo, claramente representado pela forma fálica do farol e pelo seu oposto, a vaginal sereia. A lâmpada fulgurante é associada ao orgasmo, alvo da possessividade do velho Wake e do desejo de Howard, motivo inicial da rivalidade entre os dois.

O outro campo de mistério é o horror, expresso no assédio das gaivotas, no cadáver insepulto, na transmutação dos corpos e no espectro da morte que ronda como ondas. A mitologia grega tampouco fica fora das pretensões de Robert Eggers, que projeta no personagem de Dafoe um paralelo com o deus Proteu e, no de Pattinson, com Prometeu, que roubou o fogo dos deuses.

Eggers, autor do badalado A Bruxa, tem uma boa mão para a receita de um tipo de terror a meio caminho entre o psicológico e o escatológico. O FAROL impressiona logo de saída com suas imagens rústicas em tela quadrada e preto e branco, o uso extraordinário do som, a trilha musical cavernosa de Mark Korven e as atuações ensandecidas dos dois atores. Esse potencial, no entanto, vai se esgotando progressivamente diante da evidência de que, afinal, não há um argumento sólido em que se apoiar.

Entremeado por momentos de conciliação (são dois Thomas, talvez faces de um mesmo homem), o duelo entre Dafoe e Pattinson se alonga em cenas um tanto aborrecidas, por mais visceral que seja o engajamento cênico dos dois. Desponta um certo artificialismo bizarro, que tangencia o over-acting. Ao mesmo tempo, o laborioso trabalho fotográfico de Jarin Blaschke nos recintos supostamente estreitos da casa e da torre evolui para uma espécie de portfólio de movimentos de câmera e iluminação, mais ostentatórios que propriamente expressionistas.

Quando o fascínio da estética e o estranhamento da fabulação finalmente se esgotam, ficamos somente com um misto de terror juvenil e literatice de época.

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