Gabriel Mascaro.doc

Gabriel Mascaro vai se apresentar amanhã (sexta, 7/8) no NA REAL_VIRTUAL – Seminário online sobre documentário brasileiro contemporâneo. Embora esteja agora consagrado por seus ousados filmes de ficção (Boi Neon Divino Amor), Mascaro lançou sua carreira no campo do documentário, com trabalhos igualmente provocativos como KFZ 1348, Um Lugar ao Sol, Avenida Brasília Formosa e Doméstica, este o foco principal do encontro de amanhã com o realizador. Reponho aqui minhas resenhas desses quatro documentários, como publicados à época dos respectivos lançamentos em cinema ou DVD.

Sobre KFZ 1348: Um fusquinha chamado Brasil

O finado fusca de chapa 1348 era um fusca como outro qualquer. Não participou de guerras nem de revoluções, não transportou presidentes nem celebridades. Nem mesmo se envolveu em acidentes de grande repercussão. Era um fusquinha, apenas. Mas o Fusca da Volkswagen, de maneira geral, não foi um carro qualquer. Materialização de um ideal pesquisado desde os anos 1930, na Alemanha de Hitler, começou a ser fabricado em 1940. Chegou ao Brasil dez anos depois, já consagrado como o modelo mais econômico e resistente da história automobilística – sinônimo de o mais popular. A nacionalização de sua produção foi uma das bandeiras do desenvolvimentismo na era Kubitscheck. Para muitos brasileiros, o fusca virou símbolo de emancipação pessoal e mobilidade social.

É essa mitologia que justifica a escolha do 1348 (as letras da chapa mudaram com o tempo) para protagonista e dispositivo narrativo deste filme. Através da história de seus oito donos entre 1965 e 2007, Gabriel Mascaro e Marcelo Pedroso fazem um corte longitudinal da sociedade urbana brasileira. O fusca aparece como detonador de memórias e visões de mundo, ao mesmo tempo em que explicita uma dinâmica no ciclo dos sonhos de consumo. É interessante verificar como ao envelhecimento do carro corresponde uma regressão na escala econômica dos sucessivos proprietários, terminando com um nono herdeiro que é mencionado apenas visualmente: as formigas do ferro-velho. Com poucas exceções – como as formigas –, o fusca teve para cada dono um papel semelhante de realização e conforto.

Entre os estados de São Paulo e Pernambuco, a trajetória do 1348 revela um pouco do Brasil em quatro décadas. Do ufanismo dos anos 1960 à era da regeneração evangélica, passando por temas como a imigração, a ascensão social, a corrupção política e até a vaidade feminina. Há um bocado de sorte no encontro desses personagens, mas também um elogio à pesquisa como base de um bom documentário. E ainda um cuidado na composição de imagens e sons que passa muito ao largo do amadorismo disfarçado de espontaneísmo como tanto vemos por aí.

Os dois diretores lançam aqui a pedra fundamental de uma construção que iriam edificar com seus futuros filmes, especialmente Um Lugar ao Sol, de Mascaro, e Pacific, de Pedroso. A posse de um bem ou o desfrute de um passeio servem de atalho para os cineastas chegarem às práticas sociais e ao imaginário dos personagens, com destaque para os de classe média, segmento relativamente pouco visitado pelo documentário no Brasil. Não se trata de definir o homem pelo consumo, como faria um sociólogo grosseiro, mas de procurar na relação com os bens materiais uma maneira de estar no mundo, uma forma de se viver o que se entende por felicidade.

A estratégia de construção dos personagens em KFZ 1348 é curiosa. Numa primeira rodada, somos apresentados a cada um, em ordem cronológica de posse do carro. Quando a história parece já inteiramente contada, voltamos a eles, em ordem mais livre, para que conheçamos uma camada a mais de suas personalidades e histórias. Frestas são abertas para a intimidade dessas pessoas, adensando os perfis que podem ser rápidos, mas não necessariamente superficiais.

KFZ 1348 pertence a uma linhagem das mais interessantes no documentário brasileiro contemporâneo, que eu chamo de “documentário de rede de pessoas”. Nesse tipo de filme, os personagens estão reunidos, em princípio, não pela sua especificidade individual, mas por relações reais ou virtuais que os aproximam. Estariam ali não pelo que são, mas pelo que têm em comum. Os melhores desses filmes são os que, como KFZ 1348, conseguem reverter essa lógica, fazendo, no fim das contas, as pessoas serem mais interessantes que o vínculo entre elas. E olha que o vínculo aqui é também um personagem e tanto: o fusca de 43 anos de idade que chega a seu destino final diante de nossos olhos. Os proprietários contam com nosso interesse e curiosidade, mas nossa ternura, confessemos, fica com o fusquinha.

Sobre UM LUGAR AO SOL: O Brasil visto do alto

Um Lugar ao Sol não é aquele velho clássico de George Stevens sobre ascensão social, mas um filme sobre assunto análogo. Retrata oito pessoas ou famílias que moram em coberturas de luxo no Rio de Janeiro, São Paulo e Recife. As coberturas, para o diretor Gabriel Mascaro, foram um caminho (um dispositivo) para chegar ao pensamento de um estamento social pouco visitado pelos docs brasileiros.

O filme foi muito discutido em festivais por conta do retrato pouco lisonjeiro que faz de alguns personagens e pela ética duvidosa com que Mascaro deles se aproximou. A produção contatou os entrevistados através de um folheto que apresentava Gabriel como um famoso diretor de publicidade internacional, interessado em conversar sobre a moradia em coberturas. No curso de algumas entrevistas, o tema acabava deslizando para os preconceitos e sentimentos de superioridade e segurança que alimentam o apartheid social nas grandes cidades brasileiras. Sentindo-se num contexto publicitário, as pessoas deram vazão a uma franqueza que talvez não tivessem em outra situação.

Nem tudo no filme é exaltação da diferença. Há também considerações sobre espaço, liberdade, conforto, verticalização urbana etc. Há personagens relativamente matizados. Mas dificilmente o doc não será lembrado pelas cenas explícitas de arrogância social. Um dos personagens elogia a direção por finalmente fazer um documentário sobre “uma coisa positiva”. Não intuía o quadro geral que o filme acabaria por descortinar: o de uma elite dominada pelo medo e o complexo de superioridade.

A ausência de informações sobre o processo de abordagem das pessoas e dos assuntos provoca mal-estar em parte dos espectadores, entre os quais me incluo. Embora admire a força do filme e a originalidade do tema, sinto-me presenciando o efeito de um ardil. Teria o diretor “traído” seus personagens ao estimular neles a demagogia e o preconceito? Deve-se ter com os ricos a mesma ética que se costuma ter ao filmar os pobres, ou seja, protegê-los de suas próprias palavras? São questões que vêm à cabeça depois de vermos o filme. Há mesmo um momento em que uma senhora parece cair em si a respeito do intuito da entrevista, pede para interrompê-la e sai da sala para não mais voltar.

Outros, porém, veem o resultado com naturalidade. Lembro-me de conversas que tive no Festival de Tiradentes em 2010. “Essas pessoas são cultas e informadas o suficiente para saberem o que estavam falando”, dizia Sylvie Debs, então adida cultural da França em Belo Horizonte. Para o ensaísta e professor Cezar Migliorin, havia até certa justiça poética na conduta dos realizadores: “Às vezes a gente tem mesmo que escolher o inimigo e, dependendo do inimigo, partir para a violência”.

É, pode ser.

Sobre AVENIDA BRASÍLIA FORMOSA: Recife em transe

Autor do polêmico Um Lugar ao Sol, mais uma vez Gabriel Mascaro enfoca a relação de pessoas com sua moradia e a cidade. Mas Avenida Brasília Formosa se ocupa de uma faixa social bem diferente dos habitantes de coberturas do outro filme. A atitude do diretor também se altera diametralmente.

Estamos num bairro periférico de Recife, a favela Brasília Teimosa, cenário de uma célebre visita de Lula recém-eleito e seus ministros em janeiro de 2003. Já antes disso, em 2001, a orla do bairro tivera removidas suas palafitas para dar lugar à abertura da Avenida Brasília Formosa, rapidamente transformada em foco de especulação imobiliária. Esse tipo de informação, embora importante para se compreender as motivações dos personagens, nos chega de maneira oblíqua, como se encaixadas num roteiro de ficção.

Nas primeiras exibições, Mascaro apresentava o filme como ficção, o que – desconfio – servia apenas para explorar a ambiguidade do seu registro observacional dos moradores reais de Brasília Teimosa. A não ser que aquelas pessoas não sejam o que estão representando na tela, trata-se de um documentário. As coisas giram em torno principalmente de Fábio, garçom que nas horas vagas trabalha como cinegrafista amador e tem outros pendores mais surpreendentes. O caminho de Fábio se cruza com o de Débora, manicure que o contrata para gravar seu book com vistas a uma vaga no Big Brother. Cruza-se também com o do menino Cauan, cuja festa de cinco anos é animada e gravada por ele. Temos, ainda, um tanto deslocado dessa rede central, o pescador Pirambu, que teve sua economia doméstica afetada pela remoção das palafitas.

Em vez de ficção, estamos diante de um documentário que procura escapar de cânones expositivos mais clássicos. Os fragmentos de informação sobre o cotidiano dos personagens e, por extensão, do ambiente do bairro fluem casualmente de conversas entre parentes e amigos, não sem algumas situações criadas artificialmente. A trilha sonora (proveniente das cenas) embebe as imagens no caldo brega de Recife.

Nada disso contradiz o espírito do doc moderno a ponto de ser visto como ficção. O que caracteriza, de fato, Avenida Brasília Formosa é a decisão de não buscar um eixo dramático definido. O filme tenta bastar-se nos fragmentos, na ausência de um “grande sentido”, seja ele sociológico ou antropológico. Para uns, isso pode soar como incompletude. Para outros, pode ser frescor.

O que ninguém vai discutir é o capricho formal de Mascaro, que se reflete tanto no planejamento de tomadas expressivas sobre a relação das pessoas com a arquitetura e o urbanismo, quanto na qualidade das imagens captadas pelo cearense Ivo Lopes Araújo. Quem conhece Sábado à Noite, dirigido por Ivo, sabe o que pode esperar da fotografia noturna de Avenida… É algo próximo do virtuosismo. Por isso mesmo, às vezes sentimos a impressão de que a pesquisa formal é tão ou mais importante que a investigação temática do choque entre as Brasílias Teimosa e Formosa.

Sobre DOMÉSTICA: Minha querida empregada

O êxito de O Som ao Redor despertou quem ainda estava adormecido para a importância do estudo que, com surpreendente unidade, vêm fazendo os cineastas de Recife a propósito das aspirações da classe média urbana atual.  Um Lugar ao Sol, de Gabriel Mascaro, Pacific Câmara Escura, de Marcelo Pedroso, e Praça Walt Disney, de Sérgio Oliveira e Renata Pinheiro, para só citar os que conheço, têm seus valores individuais realçados pelo conjunto dessas obras.

No curta Câmara Escura, Pedroso deixa uma caixa contendo uma minicâmera ligada nas portas de casas bem protegidas do bairro rico de Casa Forte. Toca a campainha avisando que tem um embrulho na porta e desaparece do lugar. Mais tarde, ele retorna e pede de volta o equipamento. O filme é composto das variadas reações dos moradores a esse achado intrigante ou aparentemente ameaçador. Como fez em Pacific, que retratava cruzeiros a Fernando de Noronha através de filmagens domésticas de turistas, Câmara Escura quer colher a expressão mais pura, menos mediada possível, de uma classe média em busca de segurança e prazer.

Entre esse filme e Doméstica há muito mais em comum do que a “renúncia” ao controle da câmera e da documentação pelos respectivos diretores. Há principalmente um discurso dos cineastas pernambucanos que se alarga e se refina sobre a classe média brasileira. Em seu projeto, Mascaro entregou câmeras a sete adolescentes de seis capitais brasileiras e pediu que eles filmassem as empregadas domésticas da família durante uma semana. Montou o filme exclusivamente com esse material.

O simples fato de transferir para os jovens a seleção de momentos, o grau de proximidade e o tipo de relação entre quem filma e quem é filmado já garante um ponto de vista diferenciado. Mais que isso, gera uma tensão muito típica dos contatos entre patrão e empregado no âmbito doméstico. A pouca idade dos filmadores ameniza um bocado essa tensão, mas ela está lá, explicita ou implicitamente, naqueles atos de flagrar, expor, conversar. A diversidade de posturas dos empregados, as relações de cada um com o espaço físico da casa, a maneira como cada qual reage ao fato de se tornar estrela do filme, tudo isso diverte e constrange ao mesmo tempo.

O pernambucano Gilberto Freyre e o paraibano José Lins do Rêgo deixaram escritos fundamentais sobre as relações históricas de afeto e poder entre patrões e empregados. Os realizadores pernambucanos retomaram essa linhagem. Doméstica põe a nu uma dialética entre a perpetuação e a diluição das relações senhoriais do passado. Mostra que ainda prevalece a passagem dos empregados como “heranças” entre várias gerações da família, assim como os casos em que se dissolvem as fronteiras entre a família do empregado e a do patrão. Não há a denúncia “apresentada” como nos filmes sociais do passado, mas a exposição “representada” de uma dinâmica bem mais complexa do que os clichês da sociologia e da ideologia.

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