O sertão da fé e do trabalho na Mostra de Tiradentes

Notas sobre ROSA TIRANA e PEGA-SE FACÇÃO

Tempos antigos

Uma singela fábula sertaneja foi o cartaz de ontem (25/1) da Mostra Aurora. Rosa Tirana se passa no sertão da Bahia (embora algumas vozes sugiram sotaque pernambucano). Lá estão imagens icônicas de uma caatinga castigada pela seca: terra esturricada, carcaças de animais, árvores ressequidas, mandacaru. Lá estão também signos tradicionais da relação do homem nordestino com a fé: o peregrino, as procissões, o canto das carpideiras velando os mortos.

É nesse cenário que conhecemos a pobre família de Rosa (Kiarah Rocha): a mãe (Stela de Jesus) que reza para “Nossa Senhora Imaculada” pedindo chuva; o avô (José Dumont em participação especial) que parece ter uma visão trágica por trás dos olhos de cego. Uma noite, a menina pega um embornal, sua boneca de pano e o oratório da Virgem, e sai em busca da santa.

Essa toada de um cinema “antigo” e naïf é subitamente interrompida por lufadas inesperadas – seja o solilóquio poético de Dumont, sejam os cantos e poemas que irrompem na narrativa. Rosa faz o percurso clássico da criança sozinha em território desconhecido, vivenciando os perigos e as bonanças da viagem. Um misterioso coronel tenta capturá-la num cativeiro sinistro. Seres de barro atravessam seu caminho num bailado ameaçador. Mas a inocência de Rosa vai sempre lhe apontar o rumo da salvação, da acolhida e da alegria. Além de uma interessante conclusão metafórica sobre a identidade da “santa”.

O diretor Rogério Sagui não disfarça seu interesse pelas formas emblemáticas de retratar um cenário reproduzido à exaustão no cinema brasileiro desde os anos 1950. O que faz a particularidade de Rosa Tirana são as inserções oníricas ou enigmáticas, que tangenciam os gêneros do terror e da fantasia lírica. Uma forte consciência de cor distingue a plástica do filme, que reforça a presença de Poções (BA), a terra de Geraldo Sarno, no cinema.  

Tempos modernos

O ronco da máquina de costura pontua o curta Pega-se Facção. Nas falas de duas costureiras da zona rural de Caruaru (PE), Thaís Braga recolhe as impressões de quem se vê submetido ao trabalho incessante das “facções”, as franquias domiciliares da indústria nordestina de jeans. Elas estão a poucos minutos de Toritama, a “capital” do setor, retratada no longa Estou me Guardando para Quando o Carnaval Chegar, de Marcelo Gomes. Daí ganharem muito menos pelo mesmo serviço. O neoliberalismo também tem suas desigualdades internas.

As duas costureiras se queixam dos mesmos problemas: a falta de tempo para si, a baixa remuneração, as exigências dos patrões, as sequelas físicas do trabalho repetitivo por longas horas do dia e da noite, a estiagem que torna a agricultura familiar difícil. Mas diferem no que almejam para o seu próprio futuro e o de suas respectivas filhas. Nem tudo é igual entre os desfavorecidos.

Um filme simples, mas sensível na forma como trabalha as imagens com apuro e sem redundância. Um quadro social apresentado com acuidade e noção de síntese.

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