A Bahia traz humor e sagacidade à Mostra de Tiradentes

Notas sobre VOLTEI! e EU, EMPRESA

À espera da luz

Voltei! se passa inteiro dentro de uma pequena sala doméstica em algum ponto da Bahia, no ano de 2030. Lá fora é uma distopia. O “maldito” continua na presidência, comandando o “regime do disparate”. Reinam a fome, o desemprego, a violência, o vírus, o fundamentalismo religioso e a perseguição à arte e à cultura. Como se não bastasse, há um mês falta energia de norte a sul do país. “O Brasil machuca”, desabafam as irmãs Góes Calmon enquanto esperam o resultado de um julgamento histórico do Supremo Tribunal no radinho de pilha.

O futurismo baiano de Ary Rosa e Glenda Nicácio é uma óbvia projeção da situação atual, em que nos encontramos reféns de um governo fascista e predatório, à espera de milagres jurídicos bem pouco prováveis. Há uma dose de pessimismo embutida nessa premissa (mais 10 anos?), compensada afinal pela volta da luz.

Alayr (Wall Diaz) é delegada e Sabrina (Mary Dias) é professora de História. Enquanto esperam, à luz de velas e candeeiros, os votos do julgamento que poderá condenar o “maldito”, elas se divertem contando casos e trocando lembranças familiares. Falam da mãe, que morreu na época da ditadura, e de Fátima, a irmã do meio, cantora que foi presa pelo regime do disparate durante um Carnaval e é dada como morta. Eis que de repente batem à porta. É Fátima (Arlete Dias), que está de volta depois de oito anos desaparecida.

Se antes o clima em torno da mesa já era de expectativa e confraternização, depois do retorno de Fátima evolui do assombro inicial para a mais completa celebração da união familiar. Culpas e ressentimentos passados são logo diluídos na alegria do reencontro. Aquela salinha modesta e mal iluminada é um microcosmo do que teria sobrado de bom no país.

Em Voltei!, Ary e Glenda dispensam as peripécias de linguagem e metacinema presentes tanto no delicioso Café com Canela, como no maneirista A Ilha. Dessa vez o sabor é de teatro filmado, sustentado pelo brilho das três atrizes. Elas estão arrebatadoras em matéria de graça, ritmo e segurança nos longos diálogos e monólogos sem cortes, pontuados apenas por sirenes policiais nas evocações de fatos pregressos e as notícias do rádio sobre o julgamento. A meu ver, merecem dividir entre si todos os prêmios de interpretação feminina da temporada.

Desde os primeiros momentos, a picardia baiana domina a cena, sem contudo disfarçar o pano de fundo político e trágico a que as irmãs se referem. A toada de Ó Paí Ó, que eu já sentira nas intervenções de Arlete Dias em Café com Canela, agora se espalha nas conversas e cantos do trio. Voltei! é tão triste no background quanto é divertido e contagiante no proscênio. O trabalho dessa turma é decisivo para comprovar que, assim como Fátima, o cinema baiano, e especialmente o do Recôncavo, está bem vivo.

À espera do sucesso

Outra prova da vitalidade do cinema baiano é a comédia Eu, Empresa, que trouxe um pouco mais de humor, artigo relativamente raro na Mostra de Tiradentes. O alvo são os ideais de empreendedorismo individual, a uberização do trabalho e a busca de auto-estima que fazem a cabeça de boa parte da juventude hoje. Marcus Curvelo, ator que dirige o filme junto com Leon Sampaio, explora o alter ego criado em seus curtas, um rapaz em crise financeira e de perspectivas, que descobre um possível caminho do sucesso em expor seus fracassos num canal do Youtube. Para isso inventa o personagem Joder, onde descarrega todas as suas frustrações (veja o curta Joderismo no Youtube).

Marcus/Joder pode ser visto como herdeiro de uma tradição bem baiana de anti-heróis, que inclui o Superoutro de Edgard Navarro e até o mais recente Guilherme de Tropykaos. O rapaz é um poço de hesitações e autoquestionamentos. Consulta uma coach para mudar seu mindset e expandir seus horizontes (as palavras são dele). Ouvindo outros Youtubers, ele aprende que, para ganhar dinheiro, é preciso gostar de si mesmo e mostrar isso para os outros.

A sátira aos influenciadores digitais é impagável, sobretudo quando Joder está gravando seus vídeos repletos de mimimi, na esperança de se transformar num fracassado de sucesso. Em torno desse sarro com os astros da internet, o filme também faz comentários divertidos e agudos sobre entregadores de aplicativo, clientes de Airbnb e a relação entre motoristas e passageiros do Uber. Marcus faz bicos gravando vídeos institucionais e até fazendo imitações de vozes de criança para um aplicativo. Os revezes em todos esses campos se somam para dar corpo a um dos personagens mais hilariantes do cinema brasileiro recente.

Com seu jeito cool e engraçado, Marcus Curvelo atua no limite entre a identificação completa e o distanciamento brechtiano. O que ele e seus corroteiristas nos oferecem é uma visão crítica, mordaz – e ainda assim afetuosa – da vida em tempos de precarização e venda de si mesmo.

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