Extremos do streaming

RELATOS DO MUNDO na Netflix e GREATER THINGS na Supo Mungam Plus

A hegemonia do streaming em tempos de pandemia trouxe muitas desvantagens, entre elas a perda da escala das imagens e da ambientação sonora das salas de exibição, assim como a quebra do hábito social de “ir ao cinema” e compartilhar os filmes com estranhos. Em contrapartida, oferece a oportunidade de acesso a obras imensamente diversificadas. Para quem dispõe das plataformas, é claro.

Tomo dois exemplos antípodas: o hollywoodiano Relatos do Mundo, com toda a sua carga de clichês do western tradicional, e o obscuro Greater Things, rodado em Tóquio por um diretor inglês de nome iraniano, Vahid Hakimzadeh. A distância entre os dois filmes é interplanetária.

Johanna e as cidades

Relatos do Mundo (News of the World), no cardápio da Netflix, ostenta os nomes de Paul Greengrass (Voo United 93, O Ultimato Bourne) na direção e Tom Hanks encabeçando o elenco, secundado por Helena Zengel, a esperta menina de Transtorno Explosivo, já em seu 10º trabalho. Ostenta, ainda, uma produção dispendiosa na reconstituição do Texas em fins do século XIX.

O capitão Kidd percorre as cidades lendo notícias para plateias que não têm acesso aos jornais. No caminho, encontra Johanna, menina alemã que havia sido raptada e criada por índios, agora abandonada após um massacre na sua aldeia. Ele tenta entregá-la às autoridades, mas acaba assumindo o compromisso de levá-la até seus parentes originais no outro extremo do estado. Na travessia perigosa, de maneira completamente previsível, eles enfrentarão diversos perigos e formarão um laço de afeto para além da incomunicabilidade.

Hanks repete o papel do homem inatacável (nos dois sentidos), e Helena o mesmo de menina selvagem que a consagrou em System Crasher. Todos os chavões do gênero comparecem, à exceção do duelo ao cair do sol. Mas esse é um western liberal contemporâneo, em que cada sequência serve para denunciar um vício da colonização: massacre de índios, segregação e violência contra os negros, escravidão, exploração do trabalho infantil. Na verdade, essa postura antiestablishment já era praticada por diretores progressistas dos anos 1970, como Arthur Penn (Pequeno Grande Homem) ou Elliot Silverstein (Um Homem Chamado Cavalo). O que temos em Relatos do Mundo é um prato suntuoso, mas requentado.

Transparência e opacidade

Bem ao contrário, Greater Things, realizado em 2015 e disponível na plataforma Supo Mungam Plus, nada traz de familiar para o espectador. Na maior parte do tempo, o que vemos são quatro personagens solitários (embora dois vivam dentro de uma mesma casa), cada um orbitando em seu próprio mundo. Nosso desejo – ou necessidade – de compreensão e identificação é inatendido por boa parte dos parcos 66 minutos do filme. O único traço comum é a relação de cada um com o espaço habitado e o nosso ponto de vista sobre esses espaços.

Um casal japonês maduro divide uma casa de vidro, inteiramente transparente. Ela é interpretada pela veterana atriz Kaori Momoi e ele, pelo trompetista de jazz de vanguarda Toshinori Kondo, falecido em 2020. O casal diverge em tudo, a crer pelos poucos diálogos que podemos ouvir, já que outras falas ocorrem por trás de vidros, com som abafado ou inaudível. Um arquiteto supostamente iraniano vagueia por Tóquio e constrói para si uma espécie de casinha de cachorro, onde dorme numa passagem de pedestres. O quarto personagem é o lutador lituano Marius Zaromskis, que faz o papel de si mesmo. Para ele, que treina num espaço apertado para seu corpanzil, o ringue é sua casa.

O diretor Vahid Hakimzadeh tem no currículo uma passagem pela luta de jaula e pela bateria de uma banda de gospel. Pouco mais do que isso se descobre numa pesquisa no Google. Greater Things é seu único filme até agora. Um trabalho na fronteira do experimental, que parece mais destinado a subtrair que a somar. Por mais que os personagens circulem em ruas e lojas de Tóquio, há sempre uma espécie de barreira invisível (quando não de vidro) entre nós e eles. E também entre eles. A transparência não garante interação, mas só amplia a opacidade na grande cidade.

Afora esse conceito, nada avança além de dois esboços de progressão dramática. A partir de um encontro, a mulher japonesa e o arquiteto alimentam uma relação silenciosa que parece acontecer somente no plano da arquitetura. Já o trompetista desenvolve uma obsessão apenas especular pelo lutador. Ao fim e ao cabo, tudo permanece tão vago e insípido como uma conversa entre desconhecidos testemunhada a 200 metros de distância.

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