Festival do Rio: “Venice Beach, CA.”

Recomendo a quem for ao festival algumas medidas essenciais: lembre-se de levar o seu comprovante de vacinação, que pode ser o certificado digital do ConecteSUS ou o comprovante em papel. Sem isso, a entrada nos cinemas não será permitida. Chegue de máscara e mantenha-a cobrindo o nariz e a boca durante todo o filme. Procure guardar o maior distanciamento possível entre as poltronas ocupadas.

A francesa Marion Naccache vive entre Paris e o Rio de Janeiro e filma praias urbanas pelo mundo. Já filmou Conney Island (2010) no que seria o último verão do parque de diversões naquela área do Brooklyn, em Nova York. Fez um vídeo-ensaio sobre os frequentadores do por do sol no Arpoador em 2015. Venice Beach, CA. completa uma trilogia, dessa vez com os sem-teto que habitam um trecho específico da famosa praia de Los Angeles.

O dispositivo é bastante curioso. Marion não filma diretamente as pessoas que ouve. Mantém sua câmera rigorosamente fixa em tomadas longas e diagonais do calçadão. Uma câmera que permanece impassível, mesmo se alguma ação acontece no espaço contíguo. Os personagens são apenas ouvidos, embora às vezes possam ser reconhecidos de longe a partir do que já falaram. O trecho da praia é pobre, lúgubre e feio, em nada sugerindo o projeto original de ser uma imitação de Veneza. No filme, é visto apenas no horário semimorto de 5 às 9 da manhã, quando é frequentado apenas por joggers, garis, policiais, alguns skatistas e muitos pombos, além dos sem-teto.

É quando eles acordam de seus portais, estacionamentos, barracas, e são instados pela polícia a se moverem em direção à areia. Esta é a regra local para manter os indesejáveis à distância. Alguns vendem suas (pretensas?) obras de arte no calçadão, outros apenas passam o tempo por ali. São os excluídos da “América”. No outono de 2016, quando Marion os filmou, aproximava-se a eleição de Donald Trump, o que dá margem a comentários de teor diverso.

Sempre fora de quadro, eles e elas falam da gentrificação do bairro, da condição dos povos indígenas e dos veteranos de guerra, de supostas viagens a Marte e dos rumos do país. Por trás dos monólogos às vezes delirantes detectamos a existência de visionários, esotéricos. paranoicos, deprimidos, queixosos, mitômanos, libertários, apocalípticos, um satanista…  Um imaginário coletivo fruto das mitologias estadunidenses, mas de onde emergem centelhas de inteligência mescladas com o desvario.

O distanciamento imposto pela opção de filmagem não reduz o efeito da documentação. Em vez disso, retira a possibilidade do julgamento visual e nos deixa somente com o impacto da fabulação oral. O cenário desolado daquele pedaço de praia só faz enfatizar o contraste entre a miséria do quadro e a opulência do que se adivinha não longe dali.

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