Festival do Rio: “Barragem”

Recomendo a quem for ao festival algumas medidas essenciais: lembre-se de levar o seu comprovante de vacinação, que pode ser o certificado digital do ConecteSUS ou o comprovante em papel. Sem isso, a entrada nos cinemas não será permitida. Chegue de máscara e mantenha-a cobrindo o nariz e a boca durante todo o filme. Procure guardar o maior distanciamento possível entre as poltronas ocupadas.

A certa altura de Barragem, Antonio Geraldo Santos, uma das vítimas do rompimento da represa de Mariana em 2015, comenta sobre o desastre com a barragem de Sobradinho três anos depois: “Jornalismo é assim. Vai mostrar agora, daqui a pouco esquece todo mundo”. O documentário de Eduardo Ades vai na contramão desse “esquecimento” atribuído ao jornalismo.

Um mês depois da catástrofe de Mariana, Ades já fazia fotos no local. Quatro meses depois, estava filmando as conversas, reuniões e manifestações dos moradores de Bento Rodrigues e comunidades próximas na luta por reparação financeira, reassentamento e direito de acesso às ruínas de suas comunidades, então proibido por alegadas razões de segurança. Além das questões materiais, havia o desejo de preservar as memórias de suas famílias soterradas sob a lama. “As ruínas são da gente”, afirma Mauro Marcos da Silva, outro personagem de destaque no filme.

A equipe de Barragem voltou à região seguidamente durante cerca de um ano, disposta a não esquecer. Sem interferir nem fazer entrevistas, registrou as negociações difíceis com representantes da Samarco (cujos rostos foram desfocados na edição) e os contatos com juristas do Ministério Público encarregados de conduzir as demandas dos moradores.

Lá estão também os conflitos surgidos entre ativistas do Movimento de Atingidos por Barragens e os cidadãos temerosos de perder a presença da Samarco, responsável por aquecer a economia local e por cerca de 80% dos empregos na região de Mariana. O tamanho da tragédia fica maior quando as vítimas precisam defender a continuidade das atividades de quem a provocou.

Os projetos de alagamento da área de Bento Rodrigues e de construção de uma nova cidade em lugar próximo levantaram outras polêmicas entre a empresa e os atingidos. A tudo o filme acompanha com olhar indistinto, mas não indiferente. As poucas aproximações a um ou outro personagem tentam captar o espírito de luta e, eventualmente, a forma bem mineira com que o humor e a brincadeira se mesclam com a determinação.

Estamos em dezembro de 2021 sem que um acordo tenha sido ainda fechado para a reparação das vítimas. Barragem chega às telas para não nos deixar esquecer.

Um comentário sobre “Festival do Rio: “Barragem”

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