Festival do Rio: “Rio Doce”

Recomendo a quem for ao festival algumas medidas essenciais: lembre-se de levar o seu comprovante de vacinação, que pode ser o certificado digital do ConecteSUS ou o comprovante em papel. Sem isso, a entrada nos cinemas não será permitida. Chegue de máscara e mantenha-a cobrindo o nariz e a boca durante todo o filme. Procure guardar o maior distanciamento possível entre as poltronas ocupadas.

Abro aqui um espaço para a identificação pessoal. À parte algumas diferenças, a história de Rio Doce se parece muito com a minha. A cena em que Tiago vai se encontrar pela primeira vez com as irmãs que não conhecia, filhas do casamento oficial do seu pai, reverberou em mim como um retorno detalhado à primeira vez que, já aos 28 anos, me reuni com minhas meio-irmãs. O estranhamento, a desconfiança, a observação recíproca, um certo receio de estar entrando em novo universo de vida – tudo está fielmente retratado nessa sequência, um dos vários momentos extraordinários do longa de estreia de Fellipe Fernandes, recentemente premiado como melhor filme no Festival Olhar de Cinema.

As semelhanças, porém, terminam aí. Ao contrário de mim, Tiago não havia saído da condição muito humilde em que nasceu. Mora na periferia de Olinda, trabalha como segurança numa loja de diversões e tem dificuldade para pagar as contas, saldar uma dívida de agiotas violentos e cuidar melhor da filha, que vive entre ele e a mãe separada. Seu mal-estar se condensa numa dor nas costas que o impede de fazer aquilo que faz melhor, que é a street dance.  O papel é desempenhado por Okado do Canal, rapper, Bboy e líder comunitário da Favela do Canal, em Recife.

A descoberta de que tem três irmãs brancas na classe média alta de Recife vai causar um certo abalo em sua autopercepção, mas nada que desemboque no melodrama. Na verdade, o diretor e roteirista trata esse choque com enorme sutileza, fazendo com que ele transpareça mais em detalhes de expressão e de corpo, além de poucas e precisas indicações verbais. Temos, assim, um naturalismo radical, cortado apenas por alguns rápidos inserts do passado ou de caráter alegórico, como o encontro com o leão no meio da cidade.

De resto, Rio Doce nos insere na experiência vivencial dos personagens por meio de diálogos extremamente veristas, ditos por atores muito bem preparados para expressar o que se espera de seus personagens, sem nenhum artifício técnico evidente. Além de Okado, destacam-se Thássia Cavalcanti, Amanda Gabriel e Nash Laila como as irmãs, Cíntia Lima como a mãe e Carlos Francisco como o padrasto, sem falar num elenco coadjuvante cheio de atuações vitais e impecáveis. Tudo isso me proporcionou sensação semelhante à que tive assistindo Segredos e Mentiras, de Mike Leigh.

Seguindo os passos de Tiago, o filme comuta entre os bairros de Olinda e de Recife, pontuando a presença do hip hop, do reggae e do consumo popular. Não há ênfase no abismo social que separa as duas famílias, já que ambas são mostradas com suas virtudes, problemas e contradições. A eventual proximidade de Tiago com Laura, a mais nova, não é simplesmente casual. As fragilidades humanas não escolhem bairros.

Rio Doce é discreto e aparentemente inconcluso na superfície, mas deixa um retrogosto acentuado depois que termina. Muitas famílias brasileiras podem se ver ali representadas, sem que o filme indique grandes conflitos ou transformações. Como sói acontecer na vida, quando tantos dramas potenciais se dissolvem na rotina da vida que precisa continuar.

2 comentários sobre “Festival do Rio: “Rio Doce”

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