Festival do Rio: “Nove Dias”

Recomendo a quem for ao festival algumas medidas essenciais: lembre-se de levar o seu comprovante de vacinação, que pode ser o certificado digital do ConecteSUS ou o comprovante em papel. Sem isso, a entrada nos cinemas não será permitida. Chegue de máscara e mantenha-a cobrindo o nariz e a boca durante todo o filme. Procure guardar o maior distanciamento possível entre as poltronas ocupadas.

Em Depois da Vida, Hirokazu Kore-eda imaginou que pessoas recém-falecidas tivessem três dias para escolher uma única memória que levariam consigo para a eternidade. Uma equipe de cinema era encarregada de reconstituir a lembrança e projetá-la. Vinte e três anos depois, é curioso encontrar uma espécie de contraponto a esse argumento em Nove Dias (Nine Days), produção estadunidense dirigida por Edson Oda, brasileiro de ascendência nipônica que vive há dez anos em Los Angeles.

No filme de Oda, as coisas se passam antes da vida. Will (Winston Duke) é um entrevistador encarregado de selecionar almas para ocuparem espaços vagos na vida terrena. As almas não têm nada de imaterial. Parecem pessoas comuns que apenas esperam, num lugar-nenhum, a chance de nascer para o mundo. Will, auxiliado por Kyo (Benedict Wong), as submete a testes de fundo moral durante nove dias, quando todas, exceto uma, serão eliminadas. Um Big Brother metafísico, digamos assim.

Não há misticismo, nem flerte com o fantástico. Tudo é muito prosaico, a começar pelos equipamentos usados na seleção, que remetem aos anos 1980: videowall com televisores da época, leitores e fitas de VHS, arquivos de metal de antigos escritórios, cadernetas manuscritas. Nem sombra de computador. Os eliminados ganham como consolo a realização virtual de um desejo, o que ocasiona algumas das cenas mais bonitas do filme, uma delas ao som da canção Eu na Rua em português.

O processo de seleção acaba pondo em cheque a história do entrevistador. Will já foi vivo e observa nos monitores as vidas que se acabam e abrem vagas na terra, quando as tomadas em ângulo subjetivo dão lugar a um colorbar. Ele se sente particularmente afetado pelo suicídio de uma certa violinista Amanda, ao mesmo tempo que reprime o seu próprio desejo fundador.

Um certo conhecimento de física quântica pode ajudar a deglutir melhor as simultaneidades espaço-temporais construídas pela montagem de Jeff Betancourt e Michael Taylor, que tornam o primeiro ato do filme especialmente fascinante. Edson Oda mantém um nível excelente de sugestão cenográfica e de direção do ótimo elenco. Outros destaques óbvios vão para a trilha sonora de Antonio Pinto e o solo final de Winston Duke.

Se a especulação suprassensível pode parecer um tanto obscura nas cenas iniciais, logo se cria uma lógica interna que mobiliza o interesse. Quentin Tarantino e Spike Jonze são padrinhos dessa estreia do ex-redator publicitário. Isso equivale a ser selecionado para entrar com o pé direito na vida cinematográfica.

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