Sob o risco do esquecimento

PAJEÚ no streaming

A conciliação do documentário com a ficção de gênero dá, em Pajeú, mais uma prova de quanto é desafiadora. Se Subterrânea, já comentado aqui no blog, tentava articular uma pesquisa sobre os restos de destruição no Centro do Rio de Janeiro com uma aventura de caça ao tesouro, o longa de Pedro Diógenes procura encaixar uma investigação sobre o progressivo desaparecimento do Riacho Pajeú, em Fortaleza, num drama psicológico com toques de fantástico. O resultado é desolador nos dois sentidos.

Na moldura ficcional, a jovem professora Maristela (Fátima Muniz) passa por um estado depressivo, a que se refere apenas como “essa confusão toda”. Tem convulsões e pesadelos em que vê uma espécie de monstro de lama emergir das águas do riacho. Conectando as duas coisas, ela passa a pesquisar sobre aquele curso d’água. Ouve especialistas e pessoas afetadas pelo riacho degradado, incluindo, sem esboçar qualquer reação, um general que elogia o tratamento dado pelos portugueses aos indígenas brasileiros. Ao entrevistar uma pesquisadora interessada pelo assunto, ela sente uma conexão para além do próprio tema.

Maristela talvez queira ser uma metáfora de como o meio-ambiente afeta diretamente as pessoas. Ou mesmo algo mais metafísico, como as faltas e as perdas que podem nos levar a simbolicamente desaparecer. Os jovens na praia não sabem o que é o Pajeú. Tudo e todos correm o risco de serem esquecidos. Maristela passa a perguntar se as pessoas têm medo de serem esquecidas e, assim, desaparecerem, tal como o riacho está sumindo dos mapas.

Se o lado documental rende pouquíssimo em termos de informação e esclarecimento, a porção ficcional carece de solidez. A síndrome de Maristela é vaga demais para que possamos senti-la minimamente. As andanças da atriz pela cidade padecem da praga dos movimentos lentos e hieráticos que assola o cinema de ficção brasileiro recente. Perde-se muito tempo com cenas constrangedoras num bar de karaokê, tentativa frustrada de fazer os sentimentos de Maristela e seu amigo Yuri (Yuri Yamamoto) ecoarem à margem dos parcos diálogos.

Minha impressão é de que roteiristas e diretores brasileiros estão menosprezando a importância de um investimento em dramaturgia, comunicação de ideias e preparação de elenco. E não se trata apenas de novos nomes, mas também de gente experiente que parece ter se rendido às facilidades da realização coletiva e da circulação restrita. Filmes tíbios como Pajeú, a exemplo do riacho cearense, correm o risco de serem esquecidos.

>> Pajeú está nas plataformas ClaroTV e Vivo Play.

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