Empregadas, ativistas adolescentes e o neocapitalismo chinês

A 11ª Mostra Ecofalante de Cinema está em cartaz desde o último dia 27 em diversos espaços culturais de São Paulo, mas a partir de hoje (3/8) se intensificam as sessões online (confira aqui). Como de hábito, o evento reúne filmes sobre questões de meio-ambiente e sociedade, cobrindo assim um vastro espectro de assuntos de interesse contemporâneo.

Dos filmes disponíveis online a partir de hoje, já pude assistir a três, que recomendo: Quarto de Empregada, Animal e Ascensão.

Quartinho sem vista

Quarto de Empregada (Room Without a View) é um dossiê contundente sobre a condição das mulheres estrangeiras que vão para o Líbano trabalhar como empregadas domésticas. Atraídas por uma ilusão difundida pelas agências de emprego, elas caem nas tramas de uma forma de tráfico humano. São trancadas nas casas dos patrões – que passam a ser seus “proprietários” – e alojadas em cubículos, têm seus documentos confiscados, seus nomes alterados e costumam ser maltratadas a ponto de algumas se suicidarem. É o chamado Sistema Kalafa, que mantém as “ajudantes” à margem das leis trabalhistas sob o pretexto de que precisam ser especialmente protegidas.

A documentarista Roser Corella, espanhola radicada em Berlim, tem currículo aventuresco. Seus filmes anteriores tratam de noivas sequestradas no Quiguistão e de famílias sitiadas em casa por medo das vendettas familiares na Albânia. Ao abordar as empregadas do Líbano, usou estratagemas interessantes, como fazer ligações para agências de emprego, fingindo-se interessada em contratar seus serviços. Ou vasculhando a arquitetura residencial de Beirute em busca de enquadramentos que sintetizassem uma forma de vida e um modelo disfuncional de cidade.

Quarto de Empregada se beneficia de um acesso respeitoso tanto às imigrantes com seus dramas quanto a agentes de poucos escrúpulos e a patroas que não se esquivam de demonstrar seus preconceitos étnicos e descaso pelas colaboradoras. Numa sequência admirável, três senhoras de alta classe criticam as empregadas enquanto uma delas trabalha ao redor sem entender o que falavam em árabe.

O filme procura ponderar as falas (algumas em off por participantes que não quiseram mostrar a cara) com informações visuais preciosas sobre os ambientes domésticos, incluindo a manipulação metafórica de uma casa de bonecas. Entre imigrantes das Filipinas, de vários países africanos e de Bangladesh, Roser Corella dá mais atenção às desse último país. O projeto nasceu quando ela estava em Bangladesh e conheceu uma agência de exportação de empregadas e um centro de treinamento onde as candidatas aprendiam a lidar com equipamentos domésticos e privadas com descarga.

Seria interessante sabermos um pouco mais sobre o movimento de resistência da classe e os mecanismos de defesa, que aparecem um tanto aleatoriamente no filme. De qualquer forma, é uma janela importante que se abre sobre uma forma de trabalho análogo à escravidão que não ensombrece somente o Líbano. Aqui mesmo no Brasil, um levantamento do Ministério Público do Trabalho apontou um aumento considerável de denúncias do gênero nas últimas semanas.

>> Quarto de Empregada fica disponível de 5 a 10 de agosto.

Adolescendo em pleno ativismo

Filmado em 2019, portanto antes da pandemia de Covid-19, Animal bebe na fonte da fama de Greta Thunberg no ativismo ambiental infantojuvenil. O diretor francês Cyril Dion toma como âncoras do filme a inglesa Bella Lack e o francês de origem cingalesa Vipulan Puvaneswaran, ambos então com 16 anos. A militância deles os credencia a viajar com o filme e entrevistar ambientalistas, biólogos, filósofos e outros ativistas a respeito de temas que afligem a humanidade consciente.

Em Mumbai, conversam com um militante que liderou a limpeza de uma grande praia da cidade, infestada por lixo e plástico. Em sua precocidade circunspecta, Bella teme que um dia “o plástico, a poluição e o poder vão prevalecer sobre tudo”. No interior da França, os dois ficam chocados com a forma rude com que um criador de coelhos trata os animais em sua imensa granja. Diante de um pastor que parece amar suas vacas, Bella e Vipulan o questiona por que então entrega os bichos para os matadouros.

Há uma certa dose de pureza na forma como os pequenos veganos interrogam seus interlocutores. Num parque natural do Quênia, eles se deslumbram com a visão muito próxima de elefantes e outros animais selvagens. Não se conformam com o fato de nós, humanos, tratarmos as outras espécies como simples matéria, cuja existência se justificaria apenas para nos servir. Os animais têm personalidade e sensibilidade individuais, como atestou a antropóloga Jane Goodall em sua célebre convivência com os chimpanzés. O encontro de Bella com Jane é a epifania de uma idolatria.

Costa Rica e uma fazenda orgânica na França são visitadas como exemplos de recuperação do equilíbrio entre homens, animais e vegetação. Bella e Vipulan entrevistam o então presidente da Costa Rica sobre o esforço que reflorestou o país e o tornou um santuário da biosfera.

Animal tem uma vistosa coleção de imagens da Natureza e também de brutalidades humanas que fazem Bella se definir como uma misantropa. O engajamento pessoal de cada um deles é apenas rapidamente referido. Depois de participar do filme, Bella lançou o livro “The Children of the Anthropocene”, com relatos de crianças diretamente afetadas pela crise climática. Vipulan, por sua vez, tem participado de várias ações como greves pelo clima e ocupações. No filme, ainda que atuando somente como entrevistadores, a dupla não deixa de estimular a lucidez e o envolvimento dos mais jovens.

>> Animal fica disponível de 12 a 16 de agosto.

Por fim, destaco o documentário Ascensão, indicado ao Oscar da categoria este ano. A diretora Jessica Kingdom nos transporta ao coração do neocapitalismo chinês. Um sistema montado no estímulo à máxima produtividade, à obediência absoluta e à aparência de sucesso.

Já me detive sobre esse filme em outro post. Leia aqui.

>> Ascensão fica online de 12 a 17 de agosto.

Um comentário sobre “Empregadas, ativistas adolescentes e o neocapitalismo chinês

  1. Olá, amigo Carlinhos,
    Vivendo diariamente há anos essa realidade dramática e insultante, em choque com a maior pobreza, na periferia de nossa cidade interiorana, dominada por uma elite alienada, preconceituosa e fortemente racista, muito sensibilizou-me a forma oportuna, interessante e clara como você abordou tema tão candente e que também muito nos diz respeito, mas, por conveniência, fingimos não perceber. Curioso é que no caso do Brasil, onde rotineiramente são descobertos núcleos de trabalhadores atraídos para lugares distantes de seus locais de origem, para onde são conduzidos, por absoluta ignorância e ingenuidade, com mirabolantes mas falsas promessas de trabalho regular, quase sempre na área rural, onde sequer contam com a possibilidade de fugir, pois vigiados por gente feroz e armada até os dentes, pelos ocupantes do “andar de cima”, a mídia hegemônica divulga os crimes, mas nunca os nomes dos contraventores. Realmente, tinha razão nosso genial Tom Jobim, quando dizia que o Brasil não era para amadores.

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