Um Pinóquio “animado” demais

PINÓQUIO no streaming

Das três versões recentes de Pinóquio, finalmente nos chega Guillermo del Toro’s Pinocchio, como consta no vaidoso título original. Confesso que vi com certo enfado uma terceira repetição da melíflua história do boneco de madeira que deseja se tornar um menino de verdade para melhor cuidar do “pai” que o ama desveladamente.

É claro que esta versão completamente animada traz diferenças importantes em relação à live action de Matteo Garrone e à híbrida de Robert Zemeckis, que já não eram a coisa mais fascinante do mundo. A liberdade da animação permite a del Toro dar vazão a sua veia de prestidigitador audiovisual e criar figuras mais grotescas que a média. O desengonço de Pinóquio na sua entrada em cena e a destruição que ele promove no atelier de Gepeto são exemplos dessa verve bizarra.

As referências diretas à época da Itália fascista, com direito a aparição de Il Duce em pessoa (ops, em boneco digital) dão certo gume à fábula, ilustrando o papel da obediência e do oportunismo em um regime totalitário. Ao mesmo tempo, mostra a importância da rebelião das gerações mais novas contra o autoritarismo. Daí, talvez, a preferência a mostrar o treinamento de crianças para a guerra (Pinóquio seria o soldado perfeito por não morrer nunca) em detrimento da passagem pela anárquica Terra dos Brinquedos, ponto alto da trama original de Carlo Collodi mas que não aparece no filme.

O cineasta mexicano e seu codiretor Mark Gustafsson  providenciam, ainda, um prólogo sobre a ligação de Gepeto com seu filho de carne e osso, Carlo, morto num bombardeio da I Guerra. Pinóquio viria a ser o filho vicário, talhado em madeira num momento em que o luto explode em raiva.

As distinções desta filmagem, se acrescentam algumas poucas circunstâncias e tangenciam uma interpretação política, não impedem que o filme descambe para o modelo que assola as animações hollywoodianas ultimamente. Há uma necessidade histérica de manter o espectador ligado na movimentação excessiva, na ação ininterrupta e no alarido constante. Para o meu gosto, é como passar duas horas a bordo de um trem desgovernado.

A animação é tecnicamente brilhante, com personagens humanos que parecem estar a meio caminho entre a carne e a madeira. Os interregnos musicais, a cargo de Alexandre Desplat e diversos letristas, são pouco memoráveis, com a agravante de uma tradução para o português que sacrifica os sentidos do original para manter rimas desnecessárias.

>> Pinóquio está na Netflix.    

Um comentário sobre “Um Pinóquio “animado” demais

  1. Eu gosto do ritmo, mas é uma questão pessoal, adrenalina visual me agrada. Direção de arte incrível.
    Mas recomendo muito o making of, também no Netflix .

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