As idades da terra

IL BUCO no streaming
DA TERRA DOS ÍNDIOS AOS ÍNDIOS SEM TERRA no streaming     

IL BUCO

O italiano Michelangelo Frammartino ficou conhecido no Brasil, ainda que por poucos, com o curiosíssimo Le Quattro Volte, que retratava uma sucessão de ciclos vitais numa aldeia perdida na Calábria. Seu novo filme, Il Buco (literalmente, O Buraco) se passa naquela mesma região camponesa onde ele nasceu. O estilo permanece mais ou menos o mesmo: nenhum diálogo, nenhuma música, um ritmo que se avizinha do slow film e uma bela maneira de retratar o rústico.

A história tênue parte de algumas dicotomias bastante explícitas: riqueza/pobreza, Norte/Sul, cidade/campo, altura/profundidade, luz/escuridão. Em 1961, durante o boom econômico italiano, a próspera Milão vê a construção do edifício da Pirelli, o mais alto do país até então. Em contraposição, uma equipe de jovens espeleólogos chegava à Calábria para medir o interior da caverna de Bifurto, a mais profunda da Itália à época. Entre o arranha-céu e a caverna, são muitas as idades da terra.

Frammartino esmerou-se na reconstituição dessa viagem às profundezas. Cerca de 70% da duração do filme se passa no interior do abismo, que mais parece uma cidade subterrânea. A filmagem em profundidades de até 400 metros (a caverna tinha 687m) foi uma senhora façanha por conta das condições de segurança, umidade e luz. Cabe ressaltar que o veterano diretor de fotografia Renato Berta permaneceu à distância, controlando tudo remotamente enquanto os cinegrafistas trabalhavam à luz unicamente das lanternas nos capacetes dos espeleólogos.

Esse aspecto de documentário encenado só se quebra na rápida exposição do povoado à chegada da equipe e na caracterização de um velho pastor que a tudo observa à distância. Nós, espectadores, somos levados à mesma condição do pastor: vemos tudo de longe, sensação que se mantém mesmo quando algo é mostrado em close. O silêncio verbal, cortado apenas pelos aboios do velho e pelos gritos e assobios de comunicação dos espeleólogos, preserva o isolamento entre nós e os personagens.

Como em Le Quattro Volte, assistimos a um ciclo que se fecha enquanto outro se abre. Quando os cientistas atingem a base do buraco, algo de definitivo ocorre com o pastor. Da Itália rica da Pirelli aparecem na Calábria somente imagens da televisão e o rescaldo de revistas mostrando ícones como Fiat e Sophia Loren. Il Buco incorpora uma anotação muito fugaz dos contrastes de uma Itália que enfim se recuperava dos estragos da 2ª Guerra.

Não faltam beleza e capricho na condução do filme. Um ônibus cruzando um imenso pasto ou um cavalo que enfia a cabeça docemente numa barraca onde duas pessoas dormem são cenas que imprimem em nosso senso estético. Ainda assim, o fiapo de dramaticidade se dilui progressivamente. No fim das contas, Frammartino nos brinda mais com a singeleza do que com o alcance de suas maiores intenções.

>> Il Buco está na plataforma Sesc Digital até o dia 19 de fevereiro.           



DA TERRA DOS ÍNDIOS AOS ÍNDIOS SEM TERRA

Em 1979 Zelito Viana lançou o documentário Terra dos Índios, um panorama impressionante da devastação física e cultural das tribos indígenas brasileiras, do Rio Grande do Sul ao Pará. Seu consultor junto aos povos originários foi Darcy Ribeiro. Durante a preparação do filme, Zelito gravou uma longa entrevista com Darcy, cujas fitas depois se perderam. Recentemente, ele encontrou a respectiva transcrição, e assim nascia Da Terra dos Índios aos Índios sem Terra..

Nesse novo doc, Marcos Palmeira, sentado numa cadeira que pertenceu a Darcy, reinterpreta as respostas do antropólogo diante da câmera do pai. É um procedimento interessante, na medida em que outra geração se apossa do material e atualiza o discurso. Mas há ainda um elemento que enriquece exponencialmente o filme, que é a entrevista feita agora com o antropólogo Gersem Baniwa, indígena da etnia Baniwa, filósofo e professor da Universidade Federal do Amazonas (UFAM). Pelo brilho e a propriedade, as falas de Gersem são um tesouro que mereciam ser transcritas em livro, juntamente com as de Darcy.

Embora o panorama da questão indígena não tenha mudado muito no que diz respeito à demarcação de terras da década de 1970 para cá e tenha piorado ainda mais mo tocante às condições de vida – vide a situação dos yanomamis visitados por Lula nesta semana -, a cena cultural é hoje muito diferente. Ecoando dados apresentados por Gersem, Zelito comemora a existência de “mais de 100 mil universitários indígenas, por exemplo. Isso é incrível. Hoje, vemos deputados indígenas defendendo os interesses da comunidade no Supremo Tribunal Federal”.

>> DA TERRA DOS ÍNDIOS AOS ÍNDIOS SEM TERRA está na plataforma gratuita Sesc Digital até 19 de fevereiro e também na ClaroTV. 

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