O passado não cabe em sacos de lixo

HAPPY OLD YEAR no streaming

“O minimalismo é uma filosofia budista. Trata-se de desapegar”, repete programaticamente a personagem central de Happy Old Year. Jean é uma aspirante a designer de interiores que volta a Bangkok depois de uma temporada de três anos em Estocolmo. Ela é discípula da japonesa Marie Kondo, que fez fama ensinando as pessoas a se livrarem do que julgam inútil e conservarem somente o essencial. Assim que chega, Jean se empenha em retirar a tralha que entope a casa da família, um prédio de dois andares onde antes funcionavam uma escola de música e uma loja de reparos.

Mesmo diante da indiferença do irmão e da oposição da mãe, Jean mantém-se firme na sua opção por sacos de lixo. Quer criar seu escritório minimalista – leia-se vazio e branco, como suas camisas. Uma criatura arrogante, vivida com algidez hierática pela modelo e atriz Chutimon Chuengcharoensukying.

(Aqui cabe um parênteses: os designativos tailandeses bem mereciam uma abreviação em nome do minimalismo. O título original do filme, por exemplo, é How to ting ting yang rai mai hai leua ter, referindo-se à organização da narrativa em capítulos sobre como se desvencilhar do que não tem mais serventia ou não mais produz alegria).

Mas acontece que a fúria de Jean no descarte lhe prepara uma armadilha. À medida que vai topando com itens carregados de valor sentimental, sua consciência começa a entrar em crise. Há a câmera fotográfica de um ex-namorado que ela abandonou quando embarcou para a Suécia. Há objetos e fotos que ela se dispõe a devolver a amigos. E sobretudo o piano do pai que perdura na casa depois que ele largou a família. O instrumento é hoje uma lembrança incômoda para Jean, mas inseparável para a mãe.

É a partir dos bens e das mídias físicas que o filme de Nawapol Thamrongrattanarit organiza sua parábola sobre o caráter não descartável dos sentimentos. A renúncia de alguém pode ser um ferimento para outro. O passado não é uma fita VHS que se joga no lixo e se segue em frente. Jean vai aprender isso dolorosamente, a despeito de avançar ou não no seu propósito de suposto desprendimento.

Happy Old Year adota um estilo de encenação não propriamente minimalista, mas muito pausado e adequadamente frio. Os brancos dominam os cenários em torno de Jean, em contraste com os ambientes abarrotados da casa onde se amontoam os ecos familiares. Naqueles últimos dias de 2019 em que se passa a ação, o Ano Novo não promete felicidade para ninguém.

>> Happy Old Year está na Netflix.

Trailer legendado em inglês:

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