Quem roubou a alma de quem?

COMO FOTOGRAFEI OS YANOMAMI

Contradições não faltam em COMO FOTOGRAFEI OS YANOMAMI. A sinopse promete um documentário sobre os enfermeiros não índios e os agentes de saúde yanomami que dedicam sua vida a atender os indígenas nos confins da Amazônia. Mas o que vemos deles é pouco e superficial, geralmente disperso em comentários redundantes. A falta de técnica de entrevista é clara.

A relação entre enfermeiros e índios se introduz como um tema, mas também se limita a breves considerações dos técnicos de enfermagem sobre a forma precária como conseguem se comunicar e o baixo entendimento recíproco, além de cenas constrangedoras de imitação de rituais indígenas. A não ser por uma sequência de atendimento médico no início do filme, não nos é dado testemunhar diretamente esse contato.

E então surge a contradição mais importante. Para os yanomami, assim como para muitas outras tribos, o registro de suas imagens é uma maldição. Mais que o célebre “roubo da alma”, é uma maneira de eternizar o que não é para ser eterno. Quando um deles morre, até mesmo a menção do seu nome constitui um interdito. A fotografia (ou o filme) impede o espírito de descansar em paz.

O filme de Otávio Cury, realizado de modo bastante cru e amador, procura captar as contradições dos próprios índios em relação a essa crença. Há os que se deixam fotografar em troca de bolachas, conta alguém. Na quase surrealista inauguração de uma Unidade Básica de Saúde Indígena (a primeira em terra yanomami), os funcionários do governo incentivam o ato de fotografar. Vemos até mesmo uma sequência filmada pelos índios, sem participação da equipe. A distância entre tabu e realidade cotidiana é enfatizada.

Mas eis que o filme se insere também nessa contradição ao gravar os índios, às vezes com câmera dissimulada. Na tomada mais bem-sucedida, um close se demora até dois agentes indígenas deixarem transparecer seu incômodo, para em seguida deslocar-se até um índio mais velho que filma a equipe com seu celular. Ele está dando o troco. Talvez por isso, COMO FOTOGRAFEI OS YANOMAMI tenha resultado, afinal, num filme sem alma.

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