LIVING THE LAND
As transformações socioeconômicas da China nas décadas de 1990 e 2000 foram um tema obsessivo no cinema até pouco tempo atrás. Jia Zhang-ke foi a maior expressão desse momento, e sua influência se faz sentir em Living the Land, quando nada pelas lentas panorâmicas laterais que descrevem cenários e ações.
Mas Huo Meng faz um cinema menos crítico e mais interessado na descrição de práticas, rituais e relações interpessoais. Não sem um quê de nostalgia, ele afirma num letreiro que vai amar para sempre o estilo de vida tradicional das aldeias rurais.
O filme se passa em 1991, numa comunidade mergulhada nos velhos métodos de agricultura e velhos padrões de relacionamento familiar. Criado pela avó e a família estendida depois que os pais rumaram para a cidade grande de Shenzhen, o menino Chuang é nosso guia na extensa observação da vida na comunidade.
Pelo seu olhar, vamos testemunhar uma sucessão de episódios que poderíamos situar no plano etnográfico, tais a minúcia com que são descritos e o tempo dedicado a cada um. O trabalho nos trigais, as brincadeiras das crianças, as brigas de parentes, as refeições barulhentas, a degustação coletiva de picolés – tudo nos chega com a autenticidade garantida por atores não profissionais em performances extremamente convincentes. É provável que o trabalho com o vasto conjunto de atores naturais, muitos deles idosos, tenha sido decisivo para o júri do Festival de Berlim conceder a Huo Meng o Urso de Prata de direção.
Em meio a essa pastoral campestre despontam os fatos que sutilmente comentam as mudanças da época. Dois funerais abrem e fecham o filme. As diferenças entre um e outro dizem muito sobre a perda da relação telúrica dos aldeões com a morte dos entes queridos. Um casamento forçado sublinha a crueldade com as mulheres que marcava aquele modo de vida.
Sim, porque Living the Land não é um elogio redondo à velha China rural. O tratamento dado a um rapaz com problemas mentais é uma demonstração a mais da barbárie naturalizada naquele meio. O controle ferrenho da natalidade e a virtual inexistência oficial de muitos idosos aparecem como manchas na imagem do país.
Assim como os pais de Chuang, outros se sentem atraídos pelas grandes metrópoles, que Huo Meng não vai nos mostrar. Living the Land se aferra à paisagem da aldeia, belamente fotografada por Guo Daming. Um misto indiscernível de controle cênico e margem de improvisação nos oferece uma experiência imersiva no cotidiano e no ritmo da vida na aldeia.
É uma pena que a quantidade de personagens e as confusas relações entre eles não facilitem nossa compreensão. Em muitos momentos não consegui me situar nesse quadro e aceitei ficar meio perdido de bom grado. Da mesma forma, a parcimônia com que Huo Meng pontua as grandes transformações da época faz de Living the Land uma obra mais contemplativa do que investigativa.
>> Living the Land está nos cinemas.
