Ronda nos cinemas

BRANCO SAI. PRETO FICA podia ser um documentário bem-pensante sobre duas vítimas de violência policial contra um baile black na Ceilândia em 1986. Marquim virou cadeirante e hoje é cantor de rap. Shokito (no filme, Sartana) perdeu uma perna e faz assistência técnica de próteses mecânicas. Podia ser um doc, mas aí não seria um filme de Adirley Queirós e do coletivo que ele integra na periferia de Brasília. Juntos, eles imaginaram um “Blade Runner” de sucata, em que um terceiro personagem viaja do ano 2073 para recolher provas de crimes do Estado contra cidadãos negros e marginalizados. Temos então passado, presente e futuro articulados numa lógica totalmente paródica, que evoca também o “Alphaville” de Godard. Mas se o arcabouço sugerido pelas locações, enquadramentos e efeitos sonoros é de ficção científica, o que vemos de fato é um originalíssimo filme de ativismo, tal como outros de Adirley (“O Rap da Ceilândia”, “A Cidade é uma Só?”). Na mira, o muro invisível que separa Brasília de seus arredores, um muro que, na ficção, requer passaporte para ser transposto. Uma distância entre a ficção do poder e a realidade do país, que Marquim e seus companheiros pretendem anular construindo uma bomba sonora para ser atirada sobre o Plano-Piloto. Uma bomba que contenha os sons agressivos e bregas da periferia, que é pra destruir uma certa ideia de bom-gosto. Partes dessa proposta de escancaramento político do popular são a estética pós-geringonça dos cenários e mesmo as imperfeições e “barrigas” do filme. Adirley Queirós faz um cinema singular no Brasil, juntando invenção de linguagem, efetividade política e principalmente autonomia de expressão. Ganhou o Festival de Brasília, onde deve ter chegado mesmo como uma bomba simbólica.


De “Stagecoach” a “Os Profissionais” e “Os Imperdoáveis”, o western tem um ramo nobre nos wagon movies, os filmes de travessia em que alguém precisa conduzir uma carga frágil ou preciosa através de território perigoso. DÍVIDA DE HONRA agrega ao subgênero a novidade de ter uma mulher à frente da empreitada. Não uma qualquer, mas uma mulher de fibra, daquelas que Hilary Swank sustenta pelos dentes. A carga de Mary Cuddy é também especial: três mulheres com problemas mentais causados pela vida difícil, as relações desumanas e um inverno rigoroso no Oeste inóspito. Não são poucas as surpresas que o filme de Tommy Lee Jones nos reserva. A começar pelos limites da fortaleza de Mary, que descobrimos em duas antológicas cenas de pedido de casamento. Depois que ela contrata o rústico desertor George Briggs (Lee Jones) para ajudá-la na viagem, haverá uma intrigante troca de papéis de poder, que põe em xeque o suposto feminismo do filme. O roteiro segue em linha reta, mas com reviravoltas que instalam ambiguidade e certa originalidade a esse estranho e meditativo western sobre o destino das mulheres num mundo forjado por e para os homens. Pelo menos uma frase de Mary em hora de aflição sexual merece ir para as antologias: “Please, spare me my dignity, sir”.


Não importa quem escreva seus roteiros, David Cronenberg sempre os transforma em filmes de David Cronenberg. Vale dizer que seus personagens nunca são pessoas, mas personificações de síndromes doentias que caminham inexoravelmente para algum tipo de explosão. MAPAS PARA AS ESTRELAS não é diferente, só que o manicômio dessa vez é Hollywood, o que já é bastante para justificar toda curiosidade. No centro de tudo estão duas famílias ligadas ao mundo do estrelato. A trama criada por Bruce Wagner (roteirista associado ao terror de Wes Craven) é um buquê de rivalidades, neuroses, traumas e incestos que conduzem à esquizofrenia e ao assassinato. Uma trama de horror, enfim, disfarçada de sátira ao modo de vida hollywoodiano, estrelando vulgaridade, escatologia, esbanjamento e arrogância. O que soa divertido no início vira assustador a partir de certo ponto para depois ficar na memória apenas como uma brincadeira meio pesada.

Longe de qualquer viés moralista, mas tampouco sem a autossatisfação que se via, por exemplo, em “O Lobo de Wall Street”, o filme apenas examina com uma lupa os desregramentos dos personagens. A atriz magnificamente vivida por Juliane Moore, em particular, encarna o coquetel venenoso que embriaga aquele tipo de celebridade em rota de colisão. Cronenberg não tem a menor preocupação em ser sutil. Tudo é carregado de intenções, dos diálogos aos cenários e às referências à realidade de Tinseltown. Nem é o caso de se esperar uma história coerente e muito clara. O que conta é espalhar a gasolina, riscar o fósforo e deixar que as chamas façam o serviço. Quem quer ver a casa pegar fogo não se ocupa em arrumá-la primeiro.


0411418824721A FAMÍLIA BÉLIER é o tipo de filme que muitos críticos hesitam em admitir que gostaram. Afinal, é um filme-família, uma comédia simples e romântica que não deixa ninguém ir pra casa sem um sorriso na alma e uma lágrima se armando em cada olho. Mas é preciso dizer que se trata de um pequeno filme encantador. Numa família de surdos do interior da França, só Paula, a filha adolescente, tem escuta e fala normais. Por isso ela é o arrimo dos pais e do rimão menor, o que é exemplificado das formas mais divertidas. Mas Paula, simultaneamente com o amor, descobre também que tem o dom de cantar, para desespero dos pais e entusiasmo do professor de canto. Com muita graça e equilíbrio, o roteiro explora as angústias da adolescência e os dilemas dos deficientes auditivos, sobretudo quando eles não se amofinam diante de suas limitações. Karin Viard e François Damien, como os pais, adotam um estilo expansivo de interpretação que, embora em chave cômica, não perde o vínculo com a humanidade dos personagens. Louane Emera, semifinalista do The Voice francês, revela-se uma atriz praticamente pronta, com um misto de fragilidade e força perfeito para o papel de Paula, que lhe valeu o César de melhor “esperança feminina”. As canções anacrônicas de Michel Sardou ajudam a contar a história e dão um charme especial, fora do tempo. O filme está em cartaz há muitas semanas e não me perdoo por ter ido ver tão tarde.


vlcsnap-2014-10-31-10h39m58s213BLIND é biscoito fino norueguês. Fui bem carregado pela história da professora que, depois de perder rapidamente a visão, se encerra em seu apartamento e passa a viver na imaginação literária aquilo que teme, suspeita e deseja. Com destaque para o sexo. O diretor e roteirista Eskil Vogt nos enreda aos poucos na trama ficcional construída por Ingrid, embora nunca nos afaste da situação que ela enfrenta de fato: o medo da perda de interesse pelo seu corpo. Os limites entre realidade e criação vão sendo borrados na medida em que Ingrid insere o marido em seu enredo e promove transferências, punições e fantasias. Pode não ser divertido como “Adaptação” de Spike Jonze nem complexo como o “Providence” de Resnais, mas tem ótimos insights sobre o terceiro olho da imaginação e as maneiras como podemos fazê-lo atuar de maneira cômica ou dramática. A atriz Ellen Dorrit Petersen é fenomenal na comunicação dos detalhes da cegueira e de uma sensualidade subitamente posta em crise. O resto do elenco não fica nada a dever, como sempre entre os nórdicos.


cena-de-meus-dois-amores-1426271847373_956x500MEUS DOIS AMORES foi filmado há cinco anos, mas parece que foi feito na TV Globo há uns 30, em tempos pré-Guel Arraes e pré-Luiz Fernando Carvalho. Típica caipirada global, calcada em velhos estereótipos, sotaques caricatos, atuações careteiras e elenco escalado como valor de produção, deixa pouco a ver que se baseou num conto de Guimarães Rosa. Não fosse por algumas tiradas e expressões verbais, não se saberia a origem. Pior: adocica a história, embeleza os personagens e amontoa os fatos numa narrativa confusa, que parece girar o tempo todo no mesmo lugar. O filme inventa uma ciumeira entre a noiva e a mula que o aproxima mais de uma chanchadinha matuta do que da narrativa áspera e irônica de Rosa. É visualmente pobre e tematicamente anacrônico (honra da virgindade). Não conheço a história da produção, mas desconfio que seja um daqueles projetos encalhados da Diler que enfim encontra uma saída para o mercado.

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