A música cubana em pessoa

Graças à recomendação e à gentileza de Vicente Ferraz (Soy Cuba – O Mamute Siberiano), vim a conhecer o documentário Nosotros, la Musica, longa de estreia de Rogelio Paris, rodado em Cuba em 1964. Quem acha que conhece tudo de música cubana através de Buena Vista Social Club prepare-se para uma bela surpresa. Nosotros, la Musica faz um painel das diversas manifestações musicais de Cuba ao mesmo tempo em que fornece um retrato impressionista das cidades de Havana e Santiago de Cuba. Utilizando métodos ainda fresquinhos do free cinema e do cinema direto, Rogelio Paris conseguiu imprimir a alma musical do povo cubano.

Os locais das performances são os mais significativos: desde o Conjunto Folclórico Nacional dançando a alma afro-cubana num grande teatro até a rumbeira Celeste Mendoza incendiando um cortiço lotado de moradores (foto acima). Uma igreja é transformada em sala de concerto para a apresentação de um conjunto de charanga. O sofisticado Quinteto Instrumental de Música Moderna se exibe em um nightclub que ainda mantinha a pinta de point burguês. A cantora Elena Bourke ostenta seus dotes vocais num auditório do Rotary Club de Havana. O que vemos, no fundo, é a apropriação de diversos símbolos pré-revolucionários pela arte ou pelo divertimento popular.

A maior parte das atrações, se não todas, pertencem a um contexto musical dos anos anteriores à chegada de Fidel Castro ao poder. Ainda é visível a diversidade de classes, e o discurso do “triunfo da revolução” ainda não havia contaminado a retórica nacional. Mas a supremacia do popular já era fato consumado. O lendário Bola de Nieve se espalha falando do seu apelido e cantando duas músicas ao piano, uma delas a imortal “El Manicero” (foto abaixo). O venerando Salvador Adams dá o cartão de visita da trova cubana. Ao som do Septeto Nacional de Piñeiro, um casal de dançarinos evolui por diversas partes da cidade numa das sequências mais arrebatadoras do cinema musical de todos os tempos. Temos danças de rua, performances na praia, transes de santería ao som da música “orillé”. E uma sucessão de flagrantes inesquecíveis dos cubanos em festa ou no cotidiano das calles, becos, pátios, etc.

Extremamente bem filmado, com uma fotografia em preto e branco muito bem planejada e executada, montagem contagiante, esse documentário merece figurar entre os clássicos de sua estirpe. Ajunto aqui algumas observações passadas por Vicente Ferraz: “A montagem é do grande Nelson Rodriguez, ele trabalhou (reinventou com o Titón) no Memórias do Subdesenvolvimento, Lucia e outros clássicos do cinema latino-americano. Lopito (José López Álvarez) foi um dos maiores operadores de câmera da época de ouro do ICAIC. Já Rogelio Paris continuou sua carreira nos Estudios Fílmicos das Fuerzas Armadas Revolucionárias, uma pena! O documentário cubano deveria ser melhor estudado e não se resume a Santiago Alvarez e o Noticiero ICAIC.  Existem outros títulos que estavam na frente do seu tempo”.

Nosotros, la Musica está disponível na íntegra, ainda que em cópia de má qualidade e com legendas em inglês, aqui no Youtube.

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