Paulina e a Justiça

A personagem-título de PAULINA é alguém que desafia o senso comum – do pai, do namorado, da melhor amiga e também do espectador. A coprodução argentino-brasileira está sendo lançada com certo senso de oportunismo na onda de discussão sobre a cultura do estupro. Paulina é uma jovem advogada, filha de importante juiz, que renuncia a uma “carreira brilhante” para dar aulas de formação política e difusão de direitos a jovens na rude e pobre região de Misiones, perto da fronteira do Paraguai. O ambiente machista e violento do lugar logo se abate sobre ela na forma de um estupro coletivo. Paulina, porém, nega-se a utilizar a Justiça como vingança. E vai além: recusa-se a tirar o filho resultante do estupro.

Aos olhos do público, essa moça poderá parecer tanto uma heroína da consciência ética como uma simples masoquista. É dessa forma que o filme nos interroga e nos faz pensar. Paulina é sisuda, não argumenta muito, não nos ajuda a refletir. O pai, o namorado e a amiga personificam as reações habituais (automáticas?) a um caso tão grave como aquele. Mas Paulina resiste porque, de um lado, quer pensar por si mesma, e de outro, porque acha que conhece as razões profundas de uma sociedade fundada na brutalidade. Sua postura firme põe em xeque, entre outras coisas, o caráter progressista do pai quando defrontado com uma situação familiar extrema.

Algumas coisas não ficam muito claras no argumento, principalmente no que diz respeito ao projeto de que Paulina participa. Não sabemos direito a que se refere e nem entendemos por que a mantêm na mesma escola depois do estupro. Da mesma forma, os esparsos depoimentos à psicanalista soam como meros recursos funcionais para passar informações, e nem tão importantes assim. Mas nada disso reduz a inquietação causada por esse trabalho bastante maduro de Santiago Mitre (“O Estudante”), enriquecido pela atuação “branca” e segura de Dolores Fonzi.

Uma curiosidade: Coproduzido por Walter Salles, PAULINA é remake de um filme de 1960, “La Patota”, que veiculava a noção católica do perdão. No seu lugar, agora, entra o novo apostolado da correção política.

Um comentário sobre “Paulina e a Justiça

  1. Ainda não vi PAULINA. A primeira versão, de 1960, é uma expressiva realização de Daniel Tinayre, cineasta de berço francês. Imigrou cedo para a Argentina, onde fez – além de LA PATOTA – outros bons filmes.
    (Ely Azeredo)

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