Abuso e abandono

Esse comentário sobre UNA só deve ser lido por quem já viu o filme, não pretende vê-lo ou não se importa com spoilers.

Como o recente “Elle”, de Paul Verhoeven, UNA problematiza os discursos correntes sobre estupro e abuso sexual, assim como seus reflexos sobre a vítima. Enquanto o filme de Verhoeven tratava de um estupro violento, o de Benedict Andrews, baseado na peça “Blackbird”, de David Harrower, aborda um abuso sexual, digamos, consentido, no contexto de uma paixão interetária recíproca.

Naturalmente, cabia a Ray/Peter segurar sua onda em vez de prosseguir no jogo de sedução mútua e irresponsável com a menina. No entanto, o que o filme coloca à frente do drama não é exatamente o abuso, mas o abandono que se seguiu. Quando Una o procura, 15 anos depois, não está interessada em denunciar nem vingar-se. Ela quer principalmente assegurar-se de que foi a única (Una) menina a merecer tal “atenção” do amante. Estamos diante de uma história de amor cuja interdição se refletiu na vida de ambos. É bem verdade que ficamos sem saber se Ray era ou não um pedófilo contumaz.

Andrews investe num clima de suspense que passa por alguns chavões mas fica melhor na medida em que a trama evolui (falsamente) para o modelo “Atração Fatal”. Nesse aspecto, a cena do reencontro sexual no vestiário da empresa ganha uma potência erótica inegável, liberando enfim o que no passado era condenável. Mas algumas inconsistências também podem ser apontadas. A meu ver, a mais grave fica no envolvimento do funcionário de Peter, personagem que se resume a uma função dramática e cuja conduta resta inverossímil.

Observei também que o filme constrói um olhar um tanto paranoico sobre a possibilidade da violação sexual. Una aparece cercada de homens em diversos contextos, um pouco como a vítima que se expõe um tanto pela inocência, um tanto pelo desejo. Isso seria consequência de seu trauma fundamental da infância, mas também pode levar a uma interpretação alinhada à cultura do estupro. Como “Elle”, UNA caminha sobre um fio.

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