Açougue cristão

Em “A Paixão de Cristo”, Mel Gibson criou uma forma de combinar mensagem cristã com imagens de carnificina. ATÉ O ÚLTIMO HOMEM (Hacksaw Ridge) usa o mesmo protocolo já na cena de abertura: explosões, bolas de fogo, tiros, corpos dilacerados e muito sangue enquanto se ouve uma citação bíblica. A história real do jovem médico cristão adventista que se alistou na II Guerra mas se recusou a pegar em armas é usada como pretexto para um filme que adora pegar em armas. Pelo menos metade dos 139 minutos de projeção é consumida com cenas de batalha, muitas vezes deixando o personagem central fora de cena por longos períodos.

Desmond Doss (Andrew Garfield, imerecidamente indicado como melhor ator) começa sua carreira no Exército sendo espezinhado, linchado e chamado de covarde. Termina reverenciado como herói depois de passar por experiências crísticas como apanhar e não revidar, sacrificar-se pelos irmãos – e até pelos inimigos – e ascender aos céus simbolicamente na cena do seu próprio resgate. O proselitismo do criacionista Mel Gibson visa transformar a narrativa do herói numa parábola religiosa que possa agradar também ao complexo industrial-militar americano.

Cabe reconhecer que o filme é muito bem narrado e dirigido em seu formato careta e edificante. A fase pré-guerra é bem servida de diálogos e de poder de síntese, enquanto as batalhas impressionam pela técnica de filmagem, a montagem e o som, apesar do aspecto de açougue humano. O prêmio de melhor conjunto de stunts recebido da Liga de Atores dos EUA talvez seja o mais merecido por “Hacksaw Ridge”. Mas estará no páreo dos Oscars de melhor filme, direção, ator, montagem, mixagem e edição de som. Afinal, se está hoje bastante unida contra Trump, a indústria de Hollywood sabe cultivar seus heróis nos dois lados.

3 comentários sobre “Açougue cristão

  1. O protagonista lembra (pela descrição) o “Sargento York” – Gary Cooper – direção de Hawks, passado na Guerra de 14-18. (Ely Azeredo)

  2. Achei uma espécie de “Paixão de Crsito -2, a missão”, pois o personagem parece milagreiro, passa entre as balas dos japas, um verdadeiro novo Cristo! O filme, no final das contas, é abjeto, por mais que tecnicamente seja espetacular. Seno que o espetáculo mesmo se refere aos os corpos estraçalhados em destaque, é disso que o Mel Gibson gosta. E parte do público também… Fazer o que?

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