Irmãs, no Brasil e na Alemanha

Sobre A GLÓRIA E A GRAÇA, de Flavio R. Tambellini, e O MUNDO FORA DO LUGAR, de Margarethe Von Trotta

Pode-se argumentar que o papel caberia bem a uma trans de verdade, mas Carolina Ferraz tem um desempenho notável como Glória (ex-Luiz Carlos) em A GLÓRIA E A GRAÇA. Numa cena antológica pela coragem da atriz, ela recebe um boquete de um cliente dentro de um carro. Essa mesma cena, porém, exemplifica uma das fraquezas fundamentais do roteiro levado à tela por Flavio Ramos Tambellini. Nada convence que Glória, já então uma sólida empresária de vida resolvida, ainda fizesse michês na Augusto Severo.

No choque de personalidades que movimenta o filme, o caráter afirmativo e consciente de Glória – apesar de alguns resíduos de carências afetivas – é o principal traço a diferenciá-la da irmã Graça (Sandra Corveloni). Uma reaproximação entre as duas, depois de 15 anos de distância, ocorre quando Graça, mãe solteira, descobre que tem um aneurisma e precisa de alguém a quem confiar os filhos adolescentes em caso de uma morte súbita. Trata-se, então, de uma história de dupla aceitação: Graça precisa assimilar a nova condição do ex-irmão, e Glória tem que enfrentar o desafio de ser mãe substituta.

Esse motivo melodramático, de evolução previsível, poderia resultar numa espécie de “Tudo sobre minha irmã” caso a inspiração de Almodóvar fosse além de um certo exagero na cenografia e nos figurinos. Mas a busca de bordejar o excesso, como na sequência do hospital ou no jantar à fantasia, esbarra numa encenação pouco inspirada, que não consegue escapar às armadilhas das próprias situações. A direção por demais convencional, as tentativas esdrúxulas de fazer uma luz “criativa” em momentos inadequados e as relações estereotipadas que se estabelecem entre as crianças, a mãe e a tia impedem que o filme alce voo. Resta curtir Carolina em sua trip de “mulher forte” e seu orgulho peniano por baixo do vestido de oncinha.



Pouco depois que sua mãe morreu, a cineasta e atriz alemã Margarethe Von Trotta descobriu que não era filha única como pensava. Recebeu o telefonema de uma irmã 15 anos mais velha, que desconhecia. Essa descoberta talvez esteja na origem de uma fixação pelo tema das irmãs, dominante em pelo menos quatro de seus filmes. O MUNDO FORA DO LUGAR é o de inspiração mais diretamente autobiográfica, deixando de lado os contextos políticos e históricos frequentes em sua obra e fechando-se numa bolha puramente melodramática.

Tudo começa quando o pai de Sophie (Katja Riemann) se vê obcecado pela imagem de uma cantora de ópera idêntica à de sua mulher recém-falecida (Barbara Sukova). Insiste com a filha para que a procure e investigue sua identidade. Os desdobramentos são tortuosos, com segredos sendo revelados a conta-gotas e muitas caixas de fotos e cartas antigas sendo reabertas. Não bastasse a inconsistência da trama, marcada por coincidências, soluções fáceis e atitudes psicologicamente incongruentes, Von Trotta ainda demonstra ter perdido a razoável sutileza com que costumava conduzir suas histórias. O filme é duro e artificial como uma flor de plástico.

Cabe registrar a exploração intensiva do tema alemão do doppelgänger (o duplo): duas irmãs, dois pais, duas mães, duas cantoras, dois personagens com distúrbios de memória, duas cidades (Munique e Nova York). Em meio a tanta duplicidade, destaca-se a rápida aparição do prolífico Rüdiger Vogler, antigo alterego de Wim Wenders.

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