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A primeira cena de Nise – O Coração da Loucura já procura definir o caráter da Dra. Nise da Silveira: ela bate progressiva e insistentemente no portão do hospital até que alguém venha abrir. A gente percebe que ela não desistiria nem em três meses de portão fechado. Assim segue o perfil da heroína: perseverança e firmeza para enfrentar o status quo psiquiátrico dos anos 1940; delicadeza e compreensão profunda para com os internos do hospital.

Esse tratamento tem lá sua dose de maniqueísmo, sobretudo nas primeiras apresentações das terapias agressivas e na resistência movida pela Dra. Nise. A verdade é que o filme simplifica um pouco as coisas para melhor sintetizar o legado do anjo de Engenho de Dentro. Simplifica até mesmo ao “transcrever” escritos da Dra. Nise em falas excessivamente expositivas e didáticas, que parecem fluir mais de uma personagem pronta do que de uma pessoa em plena ação. Glória Pires, por isso mesmo, está evidentemente melhor nos raros momentos de descontração.

É na encenação das dinâmicas do ateliê de pintura, a parte mais arriscada de seu trabalho, que Roberto Berliner alcança a plenitude do poder de sugestão. O elenco, vivendo Fernando Diniz, Adelina Gomes, Carlos Pertuis e os demais futuros artistas do Museu de Imagens do Inconsciente, tem um desempenho de conjunto simplesmente notável. A melhoria do ambiente e a evolução do estado dos internos e de suas criações artísticas são transmitidos com um ótimo senso de medida e em detalhes esclarecedores e comoventes. Ali justifica-se claramente o uso da câmera na mão, ao contrário de outros momentos em que isso sugere uma instabilidade desnecessária.

O retrato da Dra. Nise, apesar de um tanto monolítico, é bastante ilustrativo de sua batalha por estimular a fantasia e a liberdade dos seus “clientes” como um caminho, se não para a cura, para uma forma de vida mais digna. O contraste, esboçado no filme, entre sua generosidade e suas manifestações de intolerância ao sentimentalismo indica a existência de contradições que não esgotaram a personagem.