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Foi há sete anos que Susana de Sousa Dias nos deu a obra-prima 48, documentário minimalista e impactante sobre memórias da repressão salazarista a ativistas de esquerda. Em Luz Obscura, ela nos brinda com uma variação do mesmo tema e do mesmo tratamento. Dessa vez, ficamos restritos a um grupo familiar. Três irmãos, nascidos na clandestinidade, recordam a vida repleta de segredos e as prisões dos pais e tios enquanto ainda eram crianças, na década de 1950.

De suas feições não vemos mais que breves relances. Ficamos somente com suas vozes em tom menor: as lembranças marcadas por longas pausas, hesitações, suspiros e travos de emoção. Um permanente e quase sempre sutil ruído ambiente nos aproxima daquelas vozes desencarnadas, enquanto as fotos da prisão e do passado da família, assim como de vestígios da velha casa, se sucedem como ecos visuais do que ouvimos.

Em lugar da simples ilustração, temos a imersão e a impregnação, propiciadas pelo largo tempo em que contemplamos cada imagem ou tela inteiramente negra. Como em 48, o efeito emocional é poderoso. Aos poucos, vai se construindo a noção de uma família despedaçada pela repressão, a tortura, a morte e o suicídio (“A PIDE fazia parte da nossa vida, mesmo quando não estava dentro da nossa casa”). Ainda muito novos, Álvaro, Rui e Isabel não viveram plenamente o que contam hoje, mas sentem profundamente por ouvir falar. Assim é conosco, que os ouvimos contar sob o apelo doloroso daquelas imagens.

Álvaro seguiu o caminho do pai e também entrou para a luta política, tendo sido preso nos anos 1970. Ele narra com riqueza de detalhes os efeitos da tortura do sono. Aqui a evocação impressionista cede lugar à experiência direta. Não se trata de simples memória, mas ora de sua falta, ora de seu excesso. Com recursos mínimos e resultados máximos, Susana de Sousa Dias coloca a arte e os arquivos a serviço da história pública, como no Brasil fez Anita Leandro e seu igualmente lancinante Retratos de Identificação.